A Rainha do Sul

«É uma cultura de facilidade. Temos medo de traumatizar os meninos com a Ilíada, ou com a História… O objetivo principal passou a ser não haver insucesso escolar, e nivela-se tudo muito por baixo. Os sistemas de educação no mundo ocidental, hoje, são feitos para normalizar e desprezam os mais inteligentes. Não se valorizam nada as elites, a própria ideia de elite está mal vista, tem muito má imprensa…»

Por ler estava ‘A Rainha do Sul’, de Arturo Pérez-Reverte (Asa Editores, 2006), mas que agora tão lamentável descuido corrigi. De facto, é uma excelente obra, uma narrativa viciante que nos envolve fascinantemente na poderosa inteligência do autor.

São 438 páginas de prazer, de deleite inebriante, tal é a construção do enredo, dos personagens, do ritmo narrativo, dos íntimos onde às vezes resvalamos em ternas comparações, donde se retira uma aprendizagem da vida…

De Arturo Pérez-Reverte já aqui tinha deixado nota de outros livros (Falcó, Homens Bons) – aqui -; agora vou viajar, entusiasmado com este amigo, para a sua ‘Uma História de Espanha’, que, a partir de hoje, está nas bancas.

Recordo uma entrevista de Arturo Pérez-Reverte à revista Visão, em 2016 em que o escritor se refere à cultura e à escola dos tempos actuais; transcrevo parte:

«É uma cultura de facilidade. Temos medo de traumatizar os meninos com a Ilíada, ou com a História… O objetivo principal passou a ser não haver insucesso escolar, e nivela-se tudo muito por baixo. Os sistemas de educação no mundo ocidental, hoje, são feitos para normalizar e desprezam os mais inteligentes. Não se valorizam nada as elites, a própria ideia de elite está mal vista, tem muito má imprensa… Veja-se a mediocridade na política espanhola, ou europeia, ou portuguesa. Onde está um Churchill, um Adenauer, um Kennedy? Logo na escola olha-se de lado para um indivíduo singular, brilhante, destacado. Torna-se suspeito e parece que é preciso igualizar todos. Mas nós não somos todos iguais!»

E o jornalista pergunta:

– Podemos estar a viver uma era parecida a esse período que antecedia a Revolução Francesa, quando muitos não a viam chegar?

«Há uma grande diferença. Essa revolução, mesmo com toda a violência, era liderada por intelectuais, por gente que acreditava em ideias, num mundo melhor. Degolaram o rei e mataram o czar por causa de ideias. Agora a revolução anuncia-se vinda dos mais brutos, dos que mostram degolações no Twitter, de verdadeiras bestas sem nenhuma dimensão intelectual. Agora é o poder do rancor, da vingança, que dirige essas ações. Antes era uma violência que achavam necessária para melhorar o mundo, hoje é pura vingança contra o poder, o dinheiro, o patrão, as humilhações, algo que até se pode compreender… Mas não há ideologia. Vão arder bibliotecas, palácios, parlamentos. Isso é terrível. Mas eu já não vou estar cá para ver…»

E fala de política e de políticos:

«Esta gentinha é o resultado de um mundo medíocre. Nem são culpados, são uma consequência deste mundo, desta Europa medíocre… É uma mediocridade enorme, já nem quero saber das notícias de atualidade política espanhola. Estou cansado. Tenho a minha biblioteca, que é o meu bunker, a minha trincheira, o meu refúgio. Ponho-me a ler Sócrates, Xenofonte, Montaigne, Plutarco… Como uma aspirina que tira as dores de cabeça.»

«Quando lemos e estudamos História sabemos que há sempre bárbaros a caminho»

Norberto Manso

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