A morte é um dia que vale a pena viver

As perdas simbólicas podem ser mortes mais difíceis de lidar do que a morte real. Há algo vivo ainda! E acreditamos que ainda podemos ressuscitar o que morreu. Mas, Sem a certeza do fim, sem a certeza de que algo acabou, é difícil partir para outro projecto, para outra relação, para outro emprego. Ficamos presos num limbo do «deveria», do «poderia».

É como se ficassem presos no canal do parto. Saíram de um lugar, mas recusam-se a chegar a outro. Estacionam na perda.

Com um título muito adequado ao conteúdo, “A morte é um dia que vale a pena viver” (Oficina do Livro, 2019), o livro de Ana Cláudia Quintana Arantes obriga-nos a uma profunda reflexão sobre o sentido da vida, tal como sugere o subtítulo: “Cuidar de alguém é a maior vitória perante a doença e é um excelente motivo para procurar um novo olhar para a vida”.

Arriscando a acusação de pecador por soberba e arrogância, diria, mesmo assim, que é uma obra de leitura obrigatória para todos os que estão vivos e que se sabem mortais, ou seja, conscientes de que um dia se irão deparar, no fim do caminho, com um muro onde chegados apenas há passado. Recomendação extensiva a todos os que de perto trabalham com gente em fim de linha. Porque, “viver como se a morte não existisse, não nos tem feito mais felizes.”

Quanto mais conscientes da nossa finitude e vulnerabilidade estivermos, melhor sentido encontramos e podemos dar à nossa vida. “não morremos somente no dia da nossa morte. Morremos a cada dia que vivemos, conscientes ou não de estarmos vivos. Mas morremos mais depressa a cada dia que vivemos privados dessa consciência. Morremos antes da morte quando nos abandonarmos. Morremos depois da morte quando nos esquecerem.” (pág. 71)

Todos nascemos para a morte que um dia nos surpreenderá ao virar de uma esquina. Prepararmo-nos para a morte não a evitará, mas ajuda-nos a encará-la com respeito e a “evitar o medo desse encontro.” (pág. 90)

PARA ESTAR AO LADO DE

ALGUÉM QUE ESTÁ A MORRER,

PRECISAMOS DE SABER COMO

AJUDAR A PESSOA A VIVER ATÉ

O DIA EM QUE A MORTE DELA

CHEGARÁ. APESAR DE MUITOS

ESCOLHEREM VIVER DE UM MODO

MORTO, TODOS TÊM DIREITO DE

MORRER VIVOS. QUANDO CHEGAR

A MINHA VEZ, QUERO ENCERRAR

A MINHA VIDA DE UM MODO BOM:

QUERO ESTAR VIVA NESSE DIA. (pág. 122)

A autora, que é médica e especialista em cuidados paliativos, defende a morte natural – ortotanásia – ou seja, a suspensão ou minimização de tratamentos que prolonguem a vida de um doente em estado terminal; não fazer procedimentos invasivos para prolongar artificialmente a vida.

Além da morte física, Ana Arantes também aborda a questão da morte simbólica no capítulo, ‘As nossas mortes de cada dia’ (pág. 185 a 196). Refere-se à morte simbólica como a de uma relação, de um trabalho, de uma carreira. Considera, e eu junto-me a ela! – que as “perdas simbólicas podem ser mortes mais difíceis de lidar do que a morte real.” porque consideramos que há algo vivo ainda! e acreditamos que ainda podemos ressuscitar o que morreu. no entanto, “Sem a certeza do fim, sem a certeza de que algo acabou, é difícil partir para outro projecto, para outra relação, para outro emprego. Ficamos presos num limbo do «deveria», do «poderia».” (pág. 188) Por isso, a autora sugere que “O primeiro passo para aprendermos a perder é aceitarmos que perdemos. Se acabou, acabou.” (pág. 192) Caso contrário, “É como se ficassem presos no canal do parto. Saíram de um lugar, mas recusam-se a chegar a outro. Estacionam na perda.” (pág. 194)

“Se terminamos uma relação a desprezar todo o tempo que passamos com aquela pessoa, escolhemos destruir parte da nossa vida.” (pág. 191)

Pouco sabemos sobre a arte de perder. Por isso, a autora sugere três padrões de sentido:

1 – O perdão a si mesmo e ao outro;

2 – Saber que o que foi vivido de bom naquela realidade não será esquecido;

3 – Termos a certeza de que fizemos a diferença naquele tempo, deixamos um legado, uma marca que transformou aquela pessoa ou aquela realidade

Vale a pena ler e reflectir.

Norberto Manso

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