‘Uma História de Espanha’… que também – tão bem – é de Portugal!

séculos de guerra, violência e opressão sob reis incapazes, ministros corruptos e bispos fanáticos, a guerra civil contra o mouro, a Inquisição e o seu infame sistema de delação e suspeita, a insolidariedade, a inveja como indiscutível pecado nacional, a falta atroz de cultura que nos pôs sempre – e continua a pôr-nos – nas mãos de pregadores e charlatães de qualquer índole

Uma História de Espanha (Edições Asa, 2020), a mais recente obra de Arturo Pérez-Reverte, resulta da compilação de 91 textos publicados semanalmente entre 5 de Maio de 2013 e 28 de Agosto de 2017. No dizer do autor, escreveu para se “divertir, reler e fruir; de um pretexto para olhar para trás desde os tempos remotos até ao presente, reflectir um pouco sobre isso e contá-lo por escrito de uma forma pessoal, amena e pouco ortodoxa com a qual […] passei momentos muito bons a ouvir grasnar os patos, pois cada um desses artigos alcançou ampla difusão nas redes sociais.” (p.236)

Não é A História de Espanha, mas sim Uma História de Espanha, ou seja, uma narrativa muito pessoal, “um olhar próprio, subjectivo, feito de leituras, de experiência, de bom senso na medida do possível. […] a visão, frequentemente mais ácida do que doce, de quem […] sabe que ser lúcido em Espanha aparelhou sempre muita amargura, muita solidão e muita desesperança.” (p.236); um retrato irónico e mordaz de Espanha ao longo do tempo, escrito numa linguagem a cativar os jovens à leitura e ao conhecimento da História, a que o humor não é alheio e que dá gosto ler…

“de nada serve uma urna se quem nela meter o voto for analfabeto, e não há quem faça avançar um país com mulas de carga, ovelhas passivas ou porcos satisfeitos.” (p.159)

Certamente que este olhar não é do agrado da cátedra de História e muitos foram os historiadores que manifestaram divergência. No entanto, é uma visão – ainda que aparente em alguns momentos uma certa ligeireza a que só se podem dar ao luxo os grandes pensadores, como é o caso – de “séculos de guerra, violência e opressão sob reis incapazes, ministros corruptos e bispos fanáticos, a guerra civil contra o mouro, a Inquisição e o seu infame sistema de delação e suspeita, a insolidariedade, a inveja como indiscutível pecado nacional, a falta atroz de cultura que nos pôs sempre – e continua a pôr-nos – nas mãos de pregadores e charlatães de qualquer índole”. (p.236)

Quem diz um olhar sobre Espanha diz um olhar sobre a Península Ibérica, sobre Portugal: é mais o que nos une que o que nos separa de nuestros hermanos. Motivo este a justificar uma leitura atenta e reflexiva por quem quiser melhor entender Portugal e os portugueses…

“Só são espanhóis os que não puderam ser outra coisa.” (p.158) Que é como quem diz, o problema de Portugal é ter muitos portugueses!

(Nota: Sobre a apresentação do livro em Portugal, ver a entrevista concedida ao Público em 25 de Setembro aqui)

Boas leituras

Norberto Manso

Esta entrada foi publicada em Os Meus Livros com as etiquetas , . ligação permanente.

Obrigado pelo seu Comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s