Editorial

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Operários e Artistas das Palavras

Trago-vos em palavras, as palavras que também foram de outros. Mas como as palavras são de quem as respira, permitam-me que, sem plágio, as partilhe convosco. Como dizia Montaigne: Faço dizer aos outros aquilo que não posso dizer tão bem, quer por debilidade da minha linguagem, quer por fraqueza dos meus sentidos.
As palavras tanto podem ser a arma mais mortífera da criação humana, como podem ser consideradas o expoente máximo da capacidade criativa do homem, permitindo comunicar e expressar as maravilhas da natureza, afectos sublimes, impressões fascinantes, sentimentos únicos. As palavras podem exprimir a beleza do amor e a fealdade do ódio.
As palavras não são boas nem más. O uso que delas fazemos é que pode ser bom ou mau.
Costuma-se dizer que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Nada mais falso diz o filósofo Fernando Savater: Qualquer palavra, até a mais humilde, vale mais que mil imagens porque pode suscitá-las todas; em contrapartida, uma imagem sem palavras, para quem não é dado a alienações místicas, é puro ornamento ou truque ilusionista do qual se escamoteia o essencial para a apropriação crítica. As palavras ganham muito, sem dúvida, com o complemento das imagens, mas as imagens sem as palavras perdem tudo. E mais adiante, ler é já uma forma de pensar, enquanto que as imagens por si só se limitam a estimular tumultuosamente maneiras de sentir e de sofrer. Dizendo-o com as palavras de Giovanni Sartori (…), «o homem que lê, o homem da galáxia Gutenberg, está constrangido a ser um animal mental; o homem que observa sem mais nada é apenas um animal ocular».
Mas, se as palavras leva-as o vento, a palavra escrita eterniza-se nos livros. Fixa-se no tempo. O Padre António Vieira dizia que o fim para o qual os homens inventaram os livros foi para conservar a memória das coisas passadas contra a tirania do tempo, e contra o esquecimento dos homens, que ainda é uma tirania maior.
Palavras escritas que preservam as memórias, memórias que são, tão simplesmente, momentos que se recusam a ser ordinários.
Escrever é como se fosse uma estalagem de repouso das ideias, do sentir, da febre de sentir. Escrevo para diminuir a febre de sentir, é uma expressão que me acompanha desde a adolescência em que comecei a escrever. Escrever estados de alma, ideias, sentimentos e emoções. Como escrevia Romain Rolland, em carta de 1904, Só escrevo porque estou só, mal portanto, magoado pelo muito que tenho sofrido. Não devemos escrever senão quando nos sentimos forçados a isso, quando precisamos de criar ou de estoirar. Ou como escreveu Louis Scutenaire, Eu escrevo para libertar o meu cérebro, não para atravancar o dos outros.
Que é o mesmo que dizer, nas palavras do nosso Eça de Queiroz, Se a tua dor te aflige, faz dela um poema.
Talvez fosse por isso que o Padre António Vieira escreveu: “O melhor retracto de cada um é aquilo que escreve. O corpo retrata-se com o pincel. A alma com a pena”. Ou, no dizer de Miguel de Cervantes, A caneta é a língua da alma.
Escreve-se para se ser lido. Ninguém escreve para analfabetos, para os que não sabem ler.
Ler muito, ou como recomenda o filósofo Fernando Savater: Devemos ler para nos abrirmos ao mundo, para nos tornarmos mais humanos, para aprendermos o desconhecido, para aumentarmos o nosso espírito crítico, para não nos deixarmos estupidificar pela televisão, para nos distinguirmos melhor dos chimpanzés, que são tão parecidos connosco.
Com as palavras faz-se literatura, escreve-se poesia, noticia-se no jornal, escrevem-se crónicas, documentam-se realidades, fazem-se estudos e divulgam-se trabalhos científicos. Operários e artistas das palavras, expõem e expõem-se. Mas, muitas vezes, os leitores sobrepõem o autor aos conteúdos. A credibilidade da escrita vem muitas vezes da sua autoria e não do seu conteúdo.
Quantas vezes, os leitores não estão à procura dos defeitos do autor por não encontrarem defeitos na sua obra?