Crónica do Rei Pasmado

“A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água.”

Visitei a minha estante dos livros esquecidos – mas não para esquecer – onde se arrumam aqueles cuja leitura depende de melhores dias, melhores oportunidades ou, quiçá, de ‘à falta de melhor’. E lá estava o livro, Crónica do Rei Pasmado, de Gonzalo Torrente Ballester, obra que desde a sua aquisição em 2002 hibernava nos livros esquecidos. Muitas vezes comecei a sua leitura e outras tantas desisti. As primeiras páginas não me agarravam, não me absorviam e desistia. Desta vez agarrei o livro determinado a lê-lo até ao fim (o autor merecia-me consideração) ou então arrumá-lo de vez e para sempre. De peito aberto, como quem não gosta de ser derrotado por um livro, resisti ao primeiro embate de frouxidão literária.

Continuar a ler

Publicado em Os Meus Livros | Etiquetas , , | Publicar um comentário

‘Uma História de Espanha’… que também – tão bem – é de Portugal!

séculos de guerra, violência e opressão sob reis incapazes, ministros corruptos e bispos fanáticos, a guerra civil contra o mouro, a Inquisição e o seu infame sistema de delação e suspeita, a insolidariedade, a inveja como indiscutível pecado nacional, a falta atroz de cultura que nos pôs sempre – e continua a pôr-nos – nas mãos de pregadores e charlatães de qualquer índole

Uma História de Espanha (Edições Asa, 2020), a mais recente obra de Arturo Pérez-Reverte, resulta da compilação de 91 textos publicados semanalmente entre 5 de Maio de 2013 e 28 de Agosto de 2017. No dizer do autor, escreveu para se “divertir, reler e fruir; de um pretexto para olhar para trás desde os tempos remotos até ao presente, reflectir um pouco sobre isso e contá-lo por escrito de uma forma pessoal, amena e pouco ortodoxa com a qual […] passei momentos muito bons a ouvir grasnar os patos, pois cada um desses artigos alcançou ampla difusão nas redes sociais.” (p.236)

Não é A História de Espanha, mas sim Uma História de Espanha, ou seja, uma narrativa muito pessoal, “um olhar próprio, subjectivo, feito de leituras, de experiência, de bom senso na medida do possível. […] a visão, frequentemente mais ácida do que doce, de quem […] sabe que ser lúcido em Espanha aparelhou sempre muita amargura, muita solidão e muita desesperança.” (p.236); um retrato irónico e mordaz de Espanha ao longo do tempo, escrito numa linguagem a cativar os jovens à leitura e ao conhecimento da História, a que o humor não é alheio e que dá gosto ler…

Continuar a ler

Publicado em Os Meus Livros | Etiquetas , | Publicar um comentário

Escrever bem não é tarefa fácil!

Para conhecer as regras da escrita, estes dois livros são uma ajuda muito interessante; vale a pena ler e manter debaixo de olho para consulta.

Escrever bem não é tarefa fácil! é a justificação de que muitos dos que escrevem mal – já nem falo dos que escrevem muito mal ou nem sequer sabem escrever – usam e abusam, justificação por vezes acasalada na desculpa sobrenatural de não terem sido brindados pelos deuses do dom da escrita.

Erros de palmatória, daqueles que fariam as delícias de um qualquer professor de escola ‘primária’ com apetitosa prontidão ao uso da ‘menina dos cinco olhos’, grassam por aí nos espaços sociais, profissionais e de comunicação privada. É de bradar aos céus! Pior, se a isso juntarmos doutas qualificações académicas, verdadeiros atestados de garantia e de obrigação de bem escrever – ou pelo menos, de não escrever tão mal.

Considero que para escrever menos mal, ou, se quisermos, para escrever bem, é necessário seguir três regras:

1 – Ler Muito. Ler, melhora, aumenta e diversifica o vocabulário; ao ler descobrimos e ficamos a conhecer belezas narrativas fascinantes, estilismos literários, poética das palavras, subtiliza de imagens, objectividade e sentido transformativo do real…

2 – Pensar bem; quem não pensa bem (quem não sabe pensar), não organiza bem as ideias e, como tal, não pode escrever bem. Más tintas e motivos vulgares não fazem boas pinturas. Porque escrever é pôr no papel o que temos na cabeça, convém termos coisas boas e organizadas, senão no papel apenas ficam rascunhos ininteligíveis;

Continuar a ler

Publicado em Os Meus Livros | Etiquetas , , | Publicar um comentário

O AMOR QUE SE FAZ, O QUE SE FAZ DO AMOR?

Sexo e amor andam de braço dado numa relação muito complexa, o que não quer dizer complicada. Podemos amar sem fazer amor; podemos fazer amor sem amar; podemos fazer amor com quem amamos. Se calhar, muitos já passaram, de alguma maneira, por qualquer uma das situações. Mas a vida ganha especial sentido sempre que fazemos amor com quem amamos.

Tropecei neste texto teclado há mais de uma década. Ainda me faz sentido o que na altura escrevi e que agora partilho:

Recordo-me de, no início dos anos 80, altura em que ainda se respirava o cheiro dos cravos e permaneciam vivos alguns aromas da revolução de Abril, um professor ter sido alvo de procedimento disciplinar por, alegadamente, pregar aos seus alunos que: O amor não existe. É preciso fazê-lo!

Fazemos amor porque amamos ou amamos porque fazemos amor? No entender do tal professor o amor não existe enquanto expressão de sentimentos. A prática sexual é que origina a terminologia do amor que, assim entendido, é apenas uma palavra sem o correspondente processo afectivo; uma invenção das palavras a que só há uma forma de lhe dar existência: fazendo.

Continuar a ler

Publicado em Reflexões Norbertinas | Publicar um comentário

A morte é um dia que vale a pena viver

As perdas simbólicas podem ser mortes mais difíceis de lidar do que a morte real. Há algo vivo ainda! E acreditamos que ainda podemos ressuscitar o que morreu. Mas, Sem a certeza do fim, sem a certeza de que algo acabou, é difícil partir para outro projecto, para outra relação, para outro emprego. Ficamos presos num limbo do «deveria», do «poderia».

É como se ficassem presos no canal do parto. Saíram de um lugar, mas recusam-se a chegar a outro. Estacionam na perda.

Com um título muito adequado ao conteúdo, “A morte é um dia que vale a pena viver” (Oficina do Livro, 2019), o livro de Ana Cláudia Quintana Arantes obriga-nos a uma profunda reflexão sobre o sentido da vida, tal como sugere o subtítulo: “Cuidar de alguém é a maior vitória perante a doença e é um excelente motivo para procurar um novo olhar para a vida”.

Arriscando a acusação de pecador por soberba e arrogância, diria, mesmo assim, que é uma obra de leitura obrigatória para todos os que estão vivos e que se sabem mortais, ou seja, conscientes de que um dia se irão deparar, no fim do caminho, com um muro onde chegados apenas há passado. Recomendação extensiva a todos os que de perto trabalham com gente em fim de linha. Porque, “viver como se a morte não existisse, não nos tem feito mais felizes.”

Continuar a ler

Publicado em Os Meus Livros | Etiquetas , | Publicar um comentário

A Rainha do Sul

«É uma cultura de facilidade. Temos medo de traumatizar os meninos com a Ilíada, ou com a História… O objetivo principal passou a ser não haver insucesso escolar, e nivela-se tudo muito por baixo. Os sistemas de educação no mundo ocidental, hoje, são feitos para normalizar e desprezam os mais inteligentes. Não se valorizam nada as elites, a própria ideia de elite está mal vista, tem muito má imprensa…»

Por ler estava ‘A Rainha do Sul’, de Arturo Pérez-Reverte (Asa Editores, 2006), mas que agora tão lamentável descuido corrigi. De facto, é uma excelente obra, uma narrativa viciante que nos envolve fascinantemente na poderosa inteligência do autor.

São 438 páginas de prazer, de deleite inebriante, tal é a construção do enredo, dos personagens, do ritmo narrativo, dos íntimos onde às vezes resvalamos em ternas comparações, donde se retira uma aprendizagem da vida…

De Arturo Pérez-Reverte já aqui tinha deixado nota de outros livros (Falcó, Homens Bons) – aqui -; agora vou viajar, entusiasmado com este amigo, para a sua ‘Uma História de Espanha’, que, a partir de hoje, está nas bancas.

Recordo uma entrevista de Arturo Pérez-Reverte à revista Visão, em 2016 em que o escritor se refere à cultura e à escola dos tempos actuais; transcrevo parte:

«É uma cultura de facilidade. Temos medo de traumatizar os meninos com a Ilíada, ou com a História… O objetivo principal passou a ser não haver insucesso escolar, e nivela-se tudo muito por baixo. Os sistemas de educação no mundo ocidental, hoje, são feitos para normalizar e desprezam os mais inteligentes. Não se valorizam nada as elites, a própria ideia de elite está mal vista, tem muito má imprensa… Veja-se a mediocridade na política espanhola, ou europeia, ou portuguesa. Onde está um Churchill, um Adenauer, um Kennedy? Logo na escola olha-se de lado para um indivíduo singular, brilhante, destacado. Torna-se suspeito e parece que é preciso igualizar todos. Mas nós não somos todos iguais!»

E o jornalista pergunta:

Continuar a ler

Publicado em Os Meus Livros | Etiquetas , , | Publicar um comentário

Sabugal – Autárquicas 2021 (final)

Felizmente que há campanhas eleitorais! Sem elas não haveria a profusão de ideias, abastança de opiniões, chegada de Messias salvadores. Poderão, ideias e candidatos, voltar a hibernar até às próximas eleições, mas dá gozo sabermos que estão vivos mortos e que daqui a quatro anos farão novamente prova de vida.

Tópicos do essencial dos textos publicados ao longo dos últimos 15 anos sobre as eleições autárquicas no Sabugal e em que esgrimi argumentos de defesa e prova das ideias (continuação, parte 4 de 4)

11 – Oposição: é minha convicção – profunda e fundamentada – que são as boas oposições que fazem os bons governos. Sem oposição é difícil governar bem (Nenhum governo pode ser sólido por muito tempo, se não tiver uma oposição temível, disse Benjamin Disraeli). A ‘competição’ espicaça e entusiasma os decisores a tomar boas decisões e, de certo modo, até a temer os erros que não querem ver ser-lhe apontados. Uma oposição apagada, pouco empenhada, pouco atenta e pouco interventiva, não mobiliza os cidadãos nem as forças vivas do concelho. No dizer de Daniel Innerarity, (A Política em Tempos de Indignação, Publicações D. Quixote, 2016) “governar é algo que está ao alcance de qualquer um, o difícil é fazer oposição. É aí onde os indivíduos se tornam verosímeis como governantes. No fundo, os eleitores tendem a premiar com o governo quem desempenhou bem a tarefa da oposição.” (pág. 341) Neste sentido, e ainda segundo este autor, Uma má oposição prejudica-se mais a si própria que ao sistema.” (pág. 340, negrito meu)

Nota final: felizmente que há campanhas eleitorais! Sem elas não haveria a profusão de ideias, abastança de opiniões, chegada de Messias salvadores. Poderão, ideias e candidatos, voltar a hibernar até às próximas eleições, mas dá gozo sabermos que estão vivos mortos e que daqui a quatro anos farão novamente prova de vida.

Este é apenas o meu ponto de vista; e, como disse Ortega e Gasset, “há tantas realidades quantos os pontos de vista”.

(Final. Parte 4 de 4)
Norberto Manso

Publicado em AUTARQUICAS - 2021 | Publicar um comentário

A cultura imaterial não se pode hierarquizar

O concurso na RTP, “Sete Maravilhas da Cultura Popular”, foi um verdadeiro atentado à cultura, às comunidades e às manifestações e expressões da cultura imaterial. Submeter manifestações culturais à votação do público para eliminar umas e eleger outras, não dignifica o promotor do programa, nem as candidaturas; eleger, com a votação do público, as 7 Maravilhas da Cultura Popular origina que, por exemplo o Cante Alentejano – que está inscrito na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO desde 2014 – seja excluído por ter sido menos votado que outras manifestações culturais.

O próprio Decreto-Lei N.º 139/2009, que estabelece o regime jurídico de salvaguarda do património cultural imaterial, institui, entre outros princípios gerais, o da: “Equivalência, ao considerar o valor intrínseco dos diferentes tipos de manifestações do património cultural imaterial num plano de igualdade, independentemente do tempo, lugar e modos da sua produção ou reprodução, bem como do contexto e dinâmica específicos de cada comunidade ou grupo;” (alínea b) do N.º 1 do artigo 2.º)

Entendo que não se pode levar a concurso, nem é passível de eleição uma qualquer expressão da cultura imaterial; nenhuma é melhor ou pior que outra, nenhuma é mais importante que qualquer outra. Cada uma É. Ponto.

Certamente, as 7 Maravilhas eleitas ficaram – os seus promotores – de peito inchado e ego inflamado; os excluídos tiveram direito ao prémio de participação; vencidos e humilhados ficam: o Ministério da Cultura, a Direcção Geral do Património Cultural e o valioso Património Cultural Imaterial Nacional.

Norberto Manso

Publicado em Reflexões Norbertinas | Etiquetas | Publicar um comentário

Sabugal – Autárquicas 2021 (3)

Não basta pregar ideias com frases vistosas e expressivas de combate ao despovoamento. Não basta dizer que se quer combater a desertificação; é preciso dizer como. São necessárias práticas que materializem essas ideias, participação activa na vida cultural, social, económica e política, participação no associativismo, empenho na dinamização das actividades, etc. Não se combate a desertificação pregando no Sabugal os caminhos para o desenvolvimento, mas vivendo fora daqui… Há muita gente que só se lembra do Sabugal de 4 em 4 anos.

Tópicos do essencial dos textos publicados ao longo dos últimos 15 anos sobre as eleições autárquicas no Sabugal e em que esgrimi argumentos de defesa e prova das ideias (continuação, parte 3 de 4)

8 – No confronto entre os diferentes candidatos prevalece quase sempre a fulanização em detrimento das ideias. Há mais inimigos que adversários, e sendo inimigos, os ataques ad hominem (argumentum ad hominem) são frequentes. Não raras vezes, o insulto, a difamação, a grosseria, a maledicência sobrepõem-se ao debate de ideias; talvez na falta destas!

9 – Programas eleitorais: nas campanhas eleitorais os partidos apresentam o seu programa eleitoral. Olhando para o que foram as últimas eleições, é de esperar que os temas do desenvolvimento e despovoamento / desertificação voltem a marcar presença significativa, vigorosa e espalhafatosa, tanto mais que são assuntos quase letárgicos entre eleições.

Não basta pregar ideias com frases vistosas e expressivas de combate ao despovoamento. Não basta dizer que se quer combater a desertificação; é preciso dizer como. São necessárias práticas que materializem essas ideias, participação activa na vida cultural, social, económica e política, participação no associativismo, empenho na dinamização das actividades, etc. Não se combate a desertificação pregando no Sabugal os caminhos para o desenvolvimento, mas vivendo fora daqui… Há muita gente que só se lembra do Sabugal de 4 em 4 anos. Há muita gente que aqui nasceu, que aqui trabalha, mas que não fixa residência no concelho. Há muita gente que daqui não é natural, que aqui trabalha, mas não vive aqui.

10 – Campanhas eleitorais: no fundo, o que me incomoda nas campanhas eleitorais é o facto de as pessoas, incluindo os candidatos, estarem mais preocupadas em dizer o que se fez mal e/ou o que não se fez, do que em dizerem o que é que elas acham que deveria ser feito e o que se propõem fazer: com honestidade intelectual, sem demagogia e com ideias que se possam materializar em projectos concretos. Ou seja, o que é que os candidatos pretendem fazer a seguir ao que, bem ou mal, foi feito. Porque é com essa realidade que se vão confrontar – “O que realmente importa é o que fazes com o que tens”, no dizer de H. G. Wells (ou, como sugeriu Jean-Paul Sartre – em adaptação livre -, o importante não é aquilo que fizeram mas o que nós mesmos faremos do que os outros fizeram).

(parte 3 de 4, continua)

Norberto Manso

Publicado em AUTARQUICAS - 2021 | Publicar um comentário

PREVINE COVID

stayawaycovidMais uma vez o uso e abuso de anglicismos de um novo-riquismo saloio, típico dos que comem sardinha e arrotam a gambas, ou dos Beati pauperes spiritu

Factos:
Foi apresentada a app StayAway Covid “que pretende identificar potenciais exposições a pessoas infetadas (sic) com Covid-19.
O uso da app lançada pelo Governo é voluntário, gratuito e anónimo, e pretende funcionar como uma ferramenta complementar para conter a expansão da pandemia de Covid-19.
A apresentação oficial decorre esta terça-feira [1 de Setembro], no Instituto Superior de Engenharia do Porto, a partir das 10 horas, e conta com a intervenção do Primeiro-Ministro, António Costa, e da Ministra da Saúde, Marta Temido.”

Comentário:

1 – app? É muito difícil dizer aplicação ou aplicativo? Talvez agora, de tão banalizado o termo, já seja tarde. Melhor fora ter prevenido o uso e abuso de anglicismos de um novo-riquismo saloio, típico dos que comem sardinha e arrotam a gambas…

2 – O nome da aplicação (ou devo dizer app?): StayAway Covid. Começamos mal! É uma aplicação para o território nacional e tem de ter nome inglês? Não podia ser, perdoem a minha fraca criatividade, por exemplo: Previne Covid?

Mais uma vez o uso e abuso de anglicismos de um novo-riquismo saloio, típico dos que comem sardinha e arrotam a gambas…

Beati pauperes spiritu

Norberto Manso

Publicado em Reflexões Norbertinas | Etiquetas , | Publicar um comentário