O Medo de Existir

“na maioria dos casos, a crítica, em Portugal, descamba no insulto pessoal, no embate imediato de dois «fulanos» – ou no elogio sobrevalorizante”

Em 2005 escrevi umas linhas sobre o livro, Portugal, Hoje: O Medo de Existir (Relógio D’Água, 2004) do filósofo José Gil.

Ao folhear revivem-se memórias reflexivas, pensamentos que a memória vai aprimorando… por exemplo, referindo-se ao descaramento político (nessa altura o João Galamba andava mais preocupado com o brinco na orelha!), José Gil escreve: “Descaramento sem vergonha, que reduz ao mínimo aquele muro de decência e de moral que tem regulado o comportamento dos políticos, sem que haja uma regra que delimite claramente a zona em que a moralidade (quer dizer, a dignidade pessoal, a correcção, o respeito pelos concidadãos, numa palavra, a civilização) impede certo tipo de atitudes.” (pág. 132)

Transcrevo um breve trecho que a realidade teima em manter actual:

A maior gratificação que pode receber um artista é saber que a sua obra entrou no espaço anónimo em que, transformando-se multiplamente, vai fazer nascer outras vozes, outras escritas, outros pensamentos. Ter a felicidade de saber que a sua obra deixou de ser sua, precisamente pelo seu poder de devir-outra.

Vê-se que o espaço público falta cruelmente em Portugal. Quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as «opiniões» dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das suas crónicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal). O «debate» é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. (…) A não existência de um espaço anónimo de devir das ideias e das obras retira, além do poder de criação, o dispositivo necessário (a mediação) que dessubjectiva o discurso e impede o choque dos «sujeitos». Se, na maioria dos casos, a crítica, em Portugal, descamba no insulto pessoal, no embate imediato de dois «fulanos» – ou no elogio sobrevalorizante – é por ausência de um terceiro termo que medeie a relação dos dois interlocutores.” (Pág. 30-31)

Norberto Manso

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As portas que Abril abriu*

Sonhámos, na euforia de Abril, um mundo novo. Tentámos ao longo de 40 anos realizar o sonho de Abril. O que está feito tem pouco a ver com o que sonhámos. Estávamos fascinados, deslumbrados. Agora, sobreveio o desencanto pelo que fizemos aos nossos sonhos.

No dia 25 de Abril de 1974, os portugueses foram possuídos por uma vaga de Utopianos imaginários. A utopia (lugar puro com uma sociedade perfeita) como que nos hipnotizou, e todos saímos à rua de cravo na mão, a sonhar com o novo mundo, a terra prometida, dádiva que os militares de Abril nos entregavam de bandeja, sem custos para o utilizador.

Democracia e liberdade davam os primeiros passos do que se imaginava ser o princípio da felicidade plena de um povo que durante 48 anos tinha sido oprimido. Acreditávamos que era chegado o tempo em que todos seríamos iguais, tudo bons rapazes, todos solidários e participativos, com consciência política; que era chegado o paraíso na terra, onde as fechaduras davam lugares a portas abertas num total respeito recíproco entre todos. A paz, o pão, habitação, saúde, educação… Revolução absoluta, felicidade para todos, perfeição total: avante camaradas que “o sol brilhará para todos nós”!

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Identidade Política

Um candidato não se faz de um dia para o outro, não nasce do nada. Um candidato afirma-se participando na vida activa do concelho, intervindo nos espaços e locais apropriados, vivenciando o pulsar sociocultural do concelho, construindo uma identidade política, programática e ‘ideológica’, dando a conhecer o que pensa, as opiniões que tem, assegurando uma previsibilidade de comportamentos políticos.

Luís Gonçalves, presidente da Comissão Política Concelhia do PS Sabugal, no seu mural do Facebook, colocou em tempos a questão do que é “ser conhecido ou não ser conhecido em política”; recentemente reiterou o questionamento, mas desta vez introduzindo a dicotomia competência / populismo: Competente ou populista? Pergunta ele.

Ainda que sem certeza alguma do que quer que seja, essas não são, no entanto, as minhas dúvidas. É simples: o Zé Cabra talvez seja mais conhecido no concelho do que qualquer um dos candidatos à Câmara, e, no entanto, tenho a profunda convicção que se ele se candidatasse no Sabugal o resultado eleitoral seria humilhante para ele; o mesmo aconteceria se Henrique Gouveia e Melo se candidatasse, apesar de ser altamente competente e pessoa prestigiada, mas desconhecida da grande maioria dos sabugalenses (se formos ao Google todos o conhecem!).

Em relação à competência: todas as pessoas são competentes só que em coisas diferentes; todos somos incompetentes em coisas diferentes. Ou seja, ninguém é totalmente e em tudo competente ou incompetente. Pelo que a competência só é avaliável em relação à função que se exerce. E por mais competente que se seja em qualquer exercício não podemos deduzir a partir daí outras competências: um calceteiro altamente competente e qualificado não seria certamente convidado a fazer o projecto de arquitectura de um estádio de futebol; e, no entanto, é muito competente no que faz.

Pelo que, a verdadeira questão, e sobre a qual muito escrevi no Cinco Quinas e aqui no blogue (ver, por exemplo, a secção: SABUGAL – AUTÁRQUICAS 2017 | Duque Li (wordpress.com) está na Identidade Política dos candidatos.

Em Julho de 2013 escrevi:

«Conheço algumas pessoas que, acredito, dariam excelentes presidentes de Câmara. Acredito, com base nas suas características pessoais: no carácter, na inteligência, na honra, nos valores, na honorabilidade, na determinação, no saber, nas ideias, na visão para o concelho, etc. etc. Mas eu acredito porque os conheço, com eles partilho vivências, convivo com eles. Mas todo esse conhecimento resulta de relações restritas, pessoais e privadas que a outros não são dadas ter. Por isso, e apesar de eu considerar que dariam excelentes presidentes, se se candidatassem, provavelmente, só teriam meia dúzia de votos. E porquê? Porque nunca se afirmaram publicamente, nunca se expuseram nem expuseram as suas ideias, e não são públicas as cores dos seus pensamentos. Os eleitores querem votar e ter expectativas baseadas em provas dadas e não num qualquer propósito suportado pela crença.

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SEXUALIDADES: infidelidades – IV / IV

Alguém que para estar comigo traísse outro, não me mereceria o respeito para estar com ele! Mais cedo ou mais tarde chegaria a minha vez!

Maria

Quem disse que ser fiel era fácil?

Não! Não é fácil ser-se fiel. É um trabalho árduo, permanente, constante, diário. E, ainda bem! Se fosse fácil, não havia nenhum mérito na fidelidade. E é tanto mais difícil, porquanto, sermos desejados, ou desejar outro, faz-nos sentir vivos, melhora a auto-estima e o amor-próprio; sermos o alvo, sermos desejados por alguém faz bem à alma; acordarem em nós o desejo pelo outro torna-nos mais humanos.

Mas valerá a pena materializar esse desejo num envolvimento sexual, quando é sabido que esse envolvimento magoa o outro tanto como nós ficaríamos magoados se fossemos traídos?

O respeito tem que ser mútuo e só há um caminho para manter uma relação que se quer gratificante: não fazer ao outro o que não gostaríamos que o outro nos fizesse. É verdade que uma facada no matrimónio não quer dizer que já não haja amor. Mas é um escancarar de portas à perda da confiança e até à perda do respeito, pilares fundamentais de uma relação.

A infidelidade é uma resposta natural, uma conduta (também) fundamentada no impulso sexual para a variedade. Assim entendida, a infidelidade é natural; a fidelidade é imposta pela cultura. Como tal, a infidelidade é um comportamento correcto em termos biofisiológicos; errado em termos socioculturais (magoa se dela o outro tiver conhecimento; mas saberá alguém gerir convenientemente a mentira e conviver com o medo de ser descoberto?)

A fidelidade é um conceito e um valor essencialmente cultural; algumas sociedades poligâmicas integram-na em formas de casamento não monogâmico. E, porque isto são respostas culturais, quando somos fiéis somos mais humanos; a infidelidade é uma resposta do animal (da biologia, do impulso sexual para a variedade) que há em nós e que nos torna mais próximos dos outros animais e nos afasta do humano (cultural). O erro, a culpa e o sofrimento que provocamos quando somos infiéis é assim atenuado pela nossa condição humana. Só magoamos porque a nossa sociedade instituiu a monogamia.

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SEXUALIDADES: infidelidades – III / IV

Mas o frágil edifício do amor deles desmoronar-se-ia imediatamente porque esse edifício repousava sobre o pilar único da sua fidelidade e os amores são como os impérios: desaparecendo a ideia sobre a qual estão construídos, também eles desaparecem.

Recebi esta mensagem de uma leitora, talvez das poucas que leu os dois últimos textos:

“…o problema é que depois de ter estado com outra pessoa, e já lá vai tanto tempo, não me perdoei ainda a mim própria o que fiz, não me perdoo por ainda não ter contado ao meu marido e, muitas vezes, quando estou com ele na intimidade, os remorsos e a culpa paralisam-me o desejo e impedem-me o prazer… Gostaria tanto que nada tivesse acontecido. Quero tanto ultrapassar este sentimento de culpa. É que eu continuo a amar o meu marido; o amor que sinto por ele nunca o pus em causa. Será este o preço que tenho de pagar por uma loucura a que não soube resistir?”.

Viver é desenhar sem borracha, dizia o poeta Millôr Fernandes. Na realidade, a vida humana só acontece uma vez e não temos nem segunda nem terceira oportunidade de apagar e refazer o que nos aconteceu. Mal ou bem, o que fizemos, fizemos. Podemos gerir a situação, aprender com os erros, esconder o mal que fizemos, mas nunca, nunca conseguiremos que a borracha apague o que foi feito. Não há regresso ao passado. Se pudéssemos viver duas vidas tudo seria mais fácil: uma vida seria para aprender e errar e outra para se agir bem.

Na mensagem da leitora parece haver a confissão de duas infidelidades: a infidelidade do envolvimento sexual com outro e a infidelidade de o esconder ao marido. Talvez na sua cabeça não saiba qual das duas é a mais grave. E quando o marido souber (se algum dia o chegar a saber) o que é que o magoará mais? O envolvimento com o outro (do qual vai querer certamente saber todos os pormenores) ou o ter sido durante tanto tempo enganado, iludido? E a pergunta impõe-se: é preferível que o outro seja feliz na ignorância ou assumir a verdade que pode destruir o casamento? Não há receitas; cada um de nós encontra as respostas que acha mais adequadas e aprende a construir o seu próprio caminho. E, se nesse percurso se omitiu (diferente de mentir) durante tanto tempo o que aconteceu, poderá a verdade ser sacrificada em favor da harmonia conjugal? E será que o marido não sabe mesmo? Será que não está apenas a fingir que não sabe a fim de preservar a vida a dois? Muitas vezes as coisas até se intuem e delas não se quer falar; as palavras, depois de ditas, podem fazer grandes estragos.

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SEXUALIDADES: infidelidades – II / IV

“Nunca enganei a minha mulher. O mérito não é nenhum: amo-a.”
(Georges Duhamel)

Terminei o último texto dizendo que a infidelidade só é um problema quando os dois prometem ser fiéis e, pelo menos um, não o é.

Segundo Kinsey (1948 e 1953) cerca de 30% dos homens e 20% das mulheres apresentavam actividade sexual extraconjugal. Outros estudos mais recentes apontam para 30% a 60% dos homens e 20% a 50% das mulheres. Mas, mais do que estas estimativas, é interessante verificar que as relações extraconjugais não acontecem tanto no início do casamento. É à medida que o tempo passa que os casais vão ficando mais tolerantes, e com a duração do casamento aumenta a frequência de actividade sexual fora do casal. Quando duas pessoas estabelecem entre si laços amorosos que se traduzem num relacionamento afectivo-sexual, elas, porque se amam, não deixam espaço a outros amores; têm um uso exclusivo, mutuamente exclusivo, do corpo do outro. Amor e sexo fundem-se num só e se falha o amor deixa de haver sexo; se falha o sexo o amor desaparece.

Normalmente, não se pode ser infiel no amor porque só se ama uma pessoa de cada vez, e, ou se ama ou não se ama. Talvez, por isso, o que dói não é o outro ter uma relação sexual extraconjugal, mas o medo de que o outro já não nos ame, por amar outro. Se calhar, a infidelidade masculina faz sofrer mais a mulher quando a infidelidade do homem acontece com a vizinha do lado, do que com uma prostituta. Com a prostituta está implícito o não envolvimento amoroso ao passo que com a vizinha, nunca se sabe! Uma coisa é certa, quem fica magoado com a infidelidade do outro reserva-se o direito de exigir não ser magoado. E, se o for, tem o direito de não querer e exigir não continuar a ser magoado.

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SEXUALIDADES: infidelidades – I / IV

“se os homens têm mais parceiros sexuais do que as mulheres, como todos os estudos indicam, ou há umas quantas mulheres hipersexuais que andam a fazer sexo com uma quantidade enorme de homens, ou os homens estão a exagerar as suas conquistas e as mulheres a exagerar as suas virtudes.” (Helen Fisher)

O envolvimento amoroso entre duas pessoas desenvolve-se lentamente, percorrendo os caminhos e as veredas do conhecimento mútuo. Desse conhecimento surge, por vezes, a fadiga relacional, partindo cada um para novos envolvimentos. Outras vezes, o conhecimento que se estabelece confirma a relação, aumenta a confiança e solidifica-se o amor.

O casamento, que é actualmente a forma mais comum de institucionalizar o amor, é selado no altar, com juras de amor eterno (o amor é eterno enquanto dura) e de fidelidade.

A princípio, quase sempre as coisas correm bem e os amantes usufruem do prazer da vida comum. O amor e os afectos abafam os pequenos problemas da vida.

Os dias vão passando, os filhos aparecem, a rotina instala-se, surgem pequenos desentendimentos: O amor e o que ficou dele não chegam para afastar o frio de quatro paredes (no dizer de Eugénio de Andrade).

O casal, que antes se despia para fazer amor, agora despe-se para dormir. Já não se faz amor quando se quer mas quando se pode, muitas vezes para alívio do desejo, num trágico afastamento do requinte imaginário da elaboração do desejo. Quanto menos amor se faz menos apetece fazer e muitas vezes só se faz porque há muito tempo que ele não acontece. O Sexo deixa de ser gratificante escancarando as portas para novos relacionamentos. Ou, como refere Ethel Person, talvez a forma mais triste e desencantada seja quando os sentimentos desaparecem e os antigos amantes permanecem juntos numa relação vazia e convencional.

Para tentar compreender o assunto, sugiro a seguinte leitura interpretativa:

1 – A natureza humana determina o impulso sexual. A cultura determina o processo em que esse impulso se materializa. Ou seja, a necessidade básica de actividade sexual nos seres humanos manifesta-se junto dos possíveis objectos de desejo ainda que a sociedade limite a sua concretização. Um casal, mesmo tendo uma actividade sexual gratificante, não exclui o desejo sexual para os outros, não elimina o impulso para a variedade e a novidade. O bom sexo, o sexo gratificante não é exclusivo do sexo com afecto. As relações extraconjugais e o sexo comercial comprovam-no!

2 – O homem, mais do que a mulher, cresce no seio de uma cultura masculina que o induz à possibilidade de actividade sexual sem afecto. Daí ser, muitas vezes, o impulso sexual canalizado para relações esporádicas, sem compromisso, para a novidade e até para o sexo comercial. A mulher, em termos meramente biológicos, também tem impulso sexual indeterminado que se pode traduzir na possibilidade de obtenção de prazer na actividade sexual com parceiros sexuais ocasionais e sem afecto. No entanto, ela cresce numa cultura que a induz à actividade sexual com afecto, penalizando-a sempre que ele ocorre fora de um relacionamento amoroso. Digamos que a mulher faz sexo com quem ama e o homem ama com quem fez sexo. É, também por isso, que a infidelidade masculina é socialmente mais bem aceite que a feminina.

3 – A infidelidade conjugal, ou relacionamento extraconjugal, caracteriza-se por ser uma relação sexual entre duas pessoas das quais uma, pelo menos, é casada com outra pessoa. E, como vimos, as relações extraconjugais são perfeitamente naturais e são fonte de prazer, tanto para o homem como para a mulher.

4 – Não estou com tudo isto a defender as relações extraconjugais ou, muito menos, a promover a promiscuidade sexual. Quero com isto dizer que homens e mulheres nascem com um impulso sexual, que esse impulso não está (em termos de biologia humana) orientado para um único parceiro ou parceira com exclusão de todos os outros; que o impulso para a actividade sexual (mais uma vez em termos biológicos) é anterior às práticas socialmente aceites; e que a actividade sexual é culturalmente orientada para relações de facto, preferencialmente no casamento.

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O Poder é Afrodisíaco!?

Existe uma consciência num número cada vez maior de pessoas que o nosso futuro depende de nós! Não se espere que sejam os outros a dizer bem e a implementar positividade e optimismo e acção na comunidade… A cada vez maior consciência que a sociedade civil vai tendo de que é ela (sociedade civil) quem tem de resolver os problemas, ter a iniciativa, com ou sem o apoio dos tomadores de decisões da política.

Tropecei neste livro que desde 2010 acumulava pó – enterrado no ‘Cemitério dos Livros Esquecidos’ (Carlos Ruiz Zafón). Folheei-o com agrado, revi os sublinhados e as notas, e deixei-me levar pelo encanto de nos voltarmos a encontrar… Acresce a nostalgia de ter partilhado com o autor bons momentos e de ter participado num outro livro dele.

O livro, Teamneurs, de Marco Cardoso, et al., (Padrões Culturais Editora, Lisboa, Dezembro de 2009), é, para mim, um sinal de esperança na construção da arquitectura de uma sociedade de homens e mulheres mais solidários, mais íntegros, mais empreendedores na valorização dos interesses colectivos… Para Jorge Alberto Vasconcellos e Sá, é “Um livro importante (e variado), dedicado a um objectivo primordial (fazer Portugal descolar) e baseado numa premissa central (não há países subdesenvolvidos, há países subgeridos).”

Segundo Marco Cardoso, começa a haver em Portugal sinais de que algumas coisas começam a mudar ao nível das mentalidades e das atitudes: “Qualquer pessoa que esteja atenta ao que se está a passar em Portugal fica confiante que existe um efeito de bola de neve em movimento. Isto apesar do clima de pessimismo que é estimulado a existir! As pequenas iniciativas estão a dar frutos. Existe uma consciência num número cada vez maior de pessoas que o nosso futuro depende de nós! Não se espere que sejam os outros a dizer bem e a implementar positividade e optimismo e acção na comunidade” (…) “A cada vez maior consciência que a sociedade civil vai tendo de que é ela (sociedade civil) quem tem de resolver os problemas, ter a iniciativa, com ou sem o apoio dos tomadores de decisões da política.” (pág. 307-308)

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A VILA DO SABUGAL – REGRESSO AO PASSADO

Sabugal – A linda entrada da vila

Embora esta risonha terra, por estar longe dos principais centros do País, esteja um tanto esquecida pela marcha do progresso, nem por isso deixa de ser rica e de acusar apreciáveis melhoramentos

Sabugal – A linda entrada da vila

Do Almanaque Bertrand, de 1950 (páginas 193 e 194), retirei esta interessante descrição da Vila do Sabugal, escrita por José Maria Andrade (um Sabugalense residente em Moçambique). Mantive a grafia original e reproduzimos as fotos que acompanham o texto.

“A VILA DO SABUGAL

QUEM vá da Guarda para esta vila, depois de ter passado por campos mais ou menos monótonos em que serpeia a estrada e de deixar a Ponte Nova, seguindo entre áleas de cerejeiras até avistar a quinta do Misarelo, certamente ficará extasiado, tal como nas paisagens descritas por Garrett, com o lindo panorama que se lhe oferece aos olhos.

A ponte airosa sobre o Coa, as duas azenhas dum e doutro lado do rio, a pequenina capela do Senhor dos Aflitos, em frente, ladeada de esguios ciprestes e lá mais em cima o vetusto castelo, sobranceiro ao rio, a atestar algumas das nossas glórias pretéritas, completam, juntamente com as inúmeras faias e flores que o enlaçam, uma belíssima tela.

O Sabugal, cabeça do mesmo concelho, é uma terra rica de folclore, de côres, de avoengas tradições!

Este concelho é um dos maiores e mais ricos de Portugal. A sua área estende-se até à raia de Espanha, depois de deixar Malcata e a serra Cornélia.

Embora esta risonha terra, por estar longe dos principais centros do País, esteja um tanto esquecida pela marcha do progresso, nem por isso deixa de ser rica e de acusar apreciáveis melhoramentos. As suas produções, próprias de climas frios, são muito apreciadas. As castanhas, que em dias ásperos e gelados, estalam na lareira; as batatas, que oriundas da América, encontraram aqui um esplêndido habitat; o centeio, que no dizer do povo, faz os olhos bonitos; o afamado sabor das suas trutas; a beleza das suas raparigas; a afabilidade dos seus habitantes; o seu hospital, um dos melhores do distrito; a sua grandiosa escola e sobretudo o seu castelo, fazem com que muitos forasteiros a procurem, principalmente na quadra cálida do ano.

O povo desta vila é alegre e feliz e mostra o seu regozijo e boa disposição, em dias de festa e domingos, no Largo da Fonte, local predilecto para esses folguedos, cantando entre outras árias de cunho regional:

Dão Solidão

Olha o passarinho,

Dão Solidão

Que caiu no laço,

Dão Solidão

Dá-m’um beijinho,

Dão Solidão

Dá-m’um abraço,

Dão Solidão.

A rolinha andar, andou,

Caiu no laço,

Logo lá ficou.

— Dá-m’um abraço.

— Isso é qu’eu não faço.

— Dá-m’um beijinho.

— Isso é qu’eu não dou.

E prosseguindo sempre, risonhos, nestas e noutras canções populares, ou dançando ao som do harmónio tocado a preceito pelo «João Casado», se divertem por longas horas.

Tem o Sabugal já um cinema de linhas modernas e em breve terá corrente eléctrica permanente, um bairro económico e uma estrada de circunvalação a abraçar a vila.

Sabugal – o novo cinema D. Dinis

Há ainda algo que torna o Sabugal importante e conhecido em quase todo o País. É a abundância de caça. As suas ariscas perdizes, matreiros coelhos e velozes lebres que vivem nos Cabecinhos, Peladas, Corujeira, Quinta do Lopes, e os javalis, lá mais adiante, na serra de Malcata, fazem, na verdade, a delícia dos que adoram as distrações cinegéticas.

Em suma, esta vila merece bem ser mais conhecida, acarinhada e visitada por aqueles que sabem apreciar a Natureza no que ela tem de mais belo e colorido, pelos que trabalham para o engrandecimento de Portugal e ainda por quem estuda a etnografia do nosso alegre povo.”

Norberto Manso

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O Filósofo e o Lobo

Fiquei fascinado com a leitura deste livro! Muito interessante.

Profunda reflexão de um filósofo sobre os humanos, comparativamente aos animais e ao lobo em particular, sem cair nos meandros da etologia e / ou da sociobiologia, estes sim, terrenos movediços em que facilmente se derrapa para abordagens fáceis, mas de cientificidade duvidosa. Relembro, a este propósito, Desmond Morris, autor de livros como: Macaco Nu, Zoo Humano, A tribo do Futebol, Sexos Humanos… de leitura fácil, brejeiros e onde (abusivamente?) se faz a comparação entre o comportamento animal e o comportamento humano. Mas, na juventude e na ânsia de querer sempre saber mais, liam-se com prazer; apenas isso, prazer.

Talvez, por isso, tenha partido para O Filósofo e o Lobo a medo, medo que se esvaiu às primeiras linhas. Em boa hora o li; mas, dado o título do livro, talvez seja mais apropriado dizer, devorei. Devorei com gosto, mastigando cada ideia, salivando por novas reflexões. No fim, um aprazível arroto (sinal de gratidão, não de má educação) que se arrastou madrugada dentro.

Dou a palavra aos mais entendidos:

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