Vaidade dos vivos ou reconhecimento dos mortos?

Os nomes dos lugares fazem parte da memória colectiva da comunidade, são uma espécie de marca-d’água comunitária que se mantem geração após geração; marcas-d’água que são a expressão de um sentir colectivo e não de um grupo particular ou de uma circunstância especial.

1 – Costumamos dar nomes às coisas e convencionamos designações para nos entendermos. As localidades têm nome, e dentro das localidades, cada lugar, cada rua, cada praça, cada avenida tem um nome; e a gente entende-se. É a toponímia.

Ao longo dos tempos as pessoas foram atribuindo nomes aos lugares. Nomes que ficaram e que cumprem a sua função referenciadora de localização do lugar. E dessa forma, uma carta enviada da China chega ao seu destinatário em Panóias de Cima.

No concelho há uma claríssima distinção entre os topónimos usados na cidade do Sabugal e os usados nas restantes povoações do concelho. Enquanto na cidade há muitos nomes de personalidades, individualidades, escritores, etc., nas povoações do concelho predominam os topónimos ancestrais que os habitantes se habituaram a usar e que tinham mais a ver com o próprio local e com o ambiente rural.

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Nunca mais vou olhar para os cães da mesma maneira!

“Os animais fazem as coisas por alguma razão. A crueldade, a fúria das bestas tem sempre a ver com a sobrevivência. Os animais tornam-se bestas para lutar, para sobreviver, tornar-se chefe da manada, conseguir a fêmea, conseguir alimento — por isso lutam e por isso matam. Numa luta entre cães, por exemplo, quando um deles se rende, oferece o pescoço ao vencedor e este deixa-o viver. Se o venceu, não o mata. O ser humano é o único que mata aquele que se rendeu. Isso vi-o com os meus olhos, ninguém me contou.”

Cães Maus Não Dançam (Edições Asa, Fevereiro de 2021) é o último livro de Arturo Pérez-Reverte, cuja leitura me fascinou do princípio ao fim. Delicioso! “Trata-se de uma parábola sobre o mundo animal e também humano, sobre a crueldade e sobre a violência. (…) É uma defesa do cão e um ataque ao homem”, no dizer do autor.

É um romance negro espantoso que se entranha – quiçá, devora – tal a narrativa envolvente que Pérez-Reverte cria. É o ‘mundo cão’ pelos olhos de Negro, um cão rafeiro, cruzamento de mastim espanhol e cão-de-fila brasileiro; o mundo de um cão na sua relação com outros canídeos e alguns humanos à mistura.

Não sabemos o que se passa na cabeça dos cães, mas a fértil imaginação do autor, ao transpor para os cães o mundo dos humanos, humanizando-os sarcasticamente (“Ladra-te a ti mesmo”) dilui as diferenças entre o homem e o cão e chegamos a esquecer quem são as personagens. “É o ser humano visto pelos cães, como eles nos vêem, com a sua admiração e as suas decepções.”

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O Meu País

“não considero que os portugueses sejam geneticamente inferiores, mas tão-só que, ao longo da História, existiram razões para que tenham ficado intolerantes, beatos e incultos.”

“O Meu País – Notas sobre Nacionalismo” de Maria Filomena Mónica (Relógio de Água Editores, 2020) é um interessante contributo ao estudo do Nacionalismo. Escrito de forma livre, a pensadora e investigadora, parece agora tanto ‘mais solta’ quanto mais a idade avança: “agora, que me foge a curta vida, gosto mais dela porque finalmente me deu a oportunidade de pensar, falar e escrever livremente.” (pág. 209)

A obra socorre-se dos muitos documentos e factos históricos, referenciados e dispersos por entre alguns autores, a partir dos quais MFM elabora a sua narrativa, por vezes – como é seu timbre – algo ácida sobre Portugal e os portugueses. No entanto, como ela diz, “Se me preocupo com os problemas do meu país é por desejar que ele seja melhor.” (pág. 10)

É um olhar transbordante de autenticidade, com a simplicidade sábia para questões complexas da nossa História, desde meados do Séc. XIX até à actualidade.

Muitas vezes MFM tem sido acusada de falta de patriotismo; no entanto, não é por falta de patriotismo que ela é tão crítica em relação a Portugal e aos portugueses. Pelo contrário, é por gostar tanto de Portugal que se deve ser crítico, para ver se se consegue fazer deste país um lugar decente, com pessoas decentes onde seja gratificante viver.

“não considero que os portugueses sejam geneticamente inferiores, mas tão-só que, ao longo da História, existiram razões para que tenham ficado intolerantes, beatos e incultos.” (pág. 11)

Boas leituras

Norberto Manso

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QUEM NÃO É PARA A CORNETA, QUE NÃO SE META!

Se da arte de manusear as palavras não percebes nada, está à vontade! Escreve, escreve no Facebook que é onde poucos se dão conta da miséria ortográfica que por lá grassa. Travestida de erudição literária, a miséria linguística dos autores empurra o Eça e o Camilo para singelas notas-de-rodapé num canto do inferno. E quanto a assunto, análises, objectividade, rigor, imparcialidade, conhecimento… esquece! Faz como os que por lá andam!

O meu amigo Zé, conhecido pela sua extraordinária ignorância culinária, ignorância proporcional à sua pública e notória gula, convidou-nos para um repasto anunciado pomposamente como ‘soirée gourmet’.

Preparado pelo anfitrião, o cripto-repasto foi salvo pelo queijo e pelo presunto que, como se sabe, são apeguilho a precisar apenas de um bom pão. O vinho também não estava mau… fôramos nós a levá-lo!

– Porque é que tu te metes a cozinhar se de cozinha não percebes pívia? Em vez de perderes tempo a cozinhar mal, porque não vais até ao Facebook, mandas lá umas bocas e escreves umas coisas? Perguntou um dos convidados, ainda deslumbrado com tamanha desfaçatez culinária.

– Porque eu não sei escrever! Não dou duas para a caixa! Responde o Zé.

– Se da arte de manusear as palavras não percebes nada, está à vontade! Escreve, escreve no Facebook que é onde poucos se dão conta da miséria ortográfica que por lá grassa. Travestida de erudição literária, a miséria linguística dos autores empurra o Eça e o Camilo para singelas notas-de-rodapé num canto do inferno. E quanto a assunto, análises, objectividade, rigor, imparcialidade, conhecimento… esquece! Faz como os que por lá andam!

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Tenho medo das pessoas de um só livro!

A pessoa de um só livro é um indivíduo com um único tipo de pensamento, uma ideia, uma doutrina; que só pensa por um autor, por uma bíblia, e que transforma isso num seguidismo quase religioso, fanático, num desprezo completo por outras ideias. E eu tenho medo dessas pessoas: Temo um homem que escolheu um livro e não jura senão por ele…

É atribuída a S. Tomás de Aquino a expressão, temo o homem de um só livro. Originalmente, a expressão pretendia dizer que o especialista num só livro (ou num só assunto) era um adversário temível em qualquer debate, porquanto dominava o livro como ninguém. Entendidos, especializados que sabiam muito de uma só coisa. (“Não tenho medo do homem que leu 100 livros diferentes, mas sim do homem que leu 1 livro 100 vezes”, no dizer de Douglas Tybel).

Presentemente, dá-se à expressão o sentido de que, a pessoa de um só livro é um indivíduo com um único tipo de pensamento, uma ideia, uma doutrina; que só pensa por um autor, por uma bíblia, e que transforma isso num seguidismo quase religioso, fanático, num desprezo completo por outras ideias. E eu tenho medo dessas pessoas: Temo um homem que escolheu um livro e não jura senão por ele…

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NÃO TE RALES, DEIXA ANDAR

Os que se auto excluem, que ficam à espera de que o governo faça tudo por eles, estão-se a excluir da vida política e, como tal, não poderão assumir por completo a sua humanidade.

(O texto que se segue foi publicado em Outubro de 2005, depois das eleições autárquicas, no Cinco Quinas. Reproduzo-o com pequenas alterações estilísticas, devendo ser lido no contexto em que foi escrito)

No livro, The Accursed Moutains, sobre a Albânia, Robert Carver conta que ao chegar a uma pequena aldeia a estrada estava obstruída, dificultando a circulação e causando prejuízo aos habitantes. A desobstrução da estrada podia ser feita em poucas horas por meia dúzia de homens, mas esses homens preferiam sentar-se nos cafés, conversando e fumando, indiferentes ao problema. O que poderia ser resolvido em poucas horas arrastava-se sem solução à vista por uma razão muito simples: consertar a estrada era tarefa do governo, não deles.

Relembro esta história para falar de eleições, de eleitores e de eleitos. No concelho do Sabugal apresentaram-se [em 2005] quatro candidaturas à Câmara e Assembleia Municipal. Todos estão de parabéns porque todos venceram ainda que nem todos tenham alcançado totalmente os objectivos que se tinham proposto. Todos elegeram membros para a Assembleia Municipal, instituição com muita importância nos destinos do município. Relativamente à Câmara Municipal, o CDS e a CDU não elegeram nenhum vereador, mas o concelho poderá, com certeza, contar com os seus prestigiosos desempenhos, em sede da Assembleia Municipal; exercício que poderá ser tanto mais empenhado e relevante porquanto, não tendo assento no executivo eleito, a sua voz será reforçada na Assembleia.

O voto é soberano. No entanto, a vida democrática não se esgota no voto. Eleitores e eleitos não estão condenados a ficar de costas voltadas durante 4 anos, como se muitos tivessem delegado nuns poucos os destinos da autarquia. Pelo contrário, o debate público, a comunicação social livre e responsável, o debate de ideias, de projectos e de programas, a auscultação ao sentir das populações, a partilha de conhecimentos, a disponibilidade de apoio a projectos espontâneos que as pessoas, individual ou colectivamente apresentem, a participação nas actividades, etc, etc, são formas de vida democrática em que temos o direito e o dever de participar. Também, por isso, a Assembleia Municipal, as reuniões do executivo camarário, as Assembleias de Freguesia são públicas para termos o direito e, sobretudo, o dever de participar. E para que a vivência democrática não se esgote nunca no voto é necessário ir às Assembleias e às reuniões da Câmara como forma de participar activamente nos destinos e na organização da autarquia. É nisto que consiste a política e é por isso que todos somos políticos: quando nos ocupamos da vida comum, do destino comum, dos confrontos comuns. Como refere André Comte-Sponville “Não fazer política é renunciar a uma parte do teu poder, o que é sempre perigoso, mas também a uma parte das tuas responsabilidades, o que é sempre condenável. (…) É preciso pois agir, lutar, resistir, inventar, salvaguardar, transformar… É para isso que serve a política.”

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Os Benefícios de Dar Peidos

Jonathan Swift define o peido como um «vapor nitroaéreo exalado de uma qualquer poça de água estagnada de natureza salínica, rarefeito e sublimado pelos tubos de um microcósmico alambique através do sereno calor proveniente de um monte cremoso de esterco, com um forte odor a decomposição animal, forçado a expelir-se pelas forças compressoras da nossa capacidade de expulsão» (pág. 43)

Apesar de só estar disponível nas livrarias desde o passado dia 12 de Janeiro, a facilidade das aquisições pela internet permitiu que o livro chegasse tão rapidamente e fosse consumido de um só folego. No seu título completo, Os Benefícios de Dar Peidos Explicados ou A Causa Fundamental dos Episódios de Indisposição do Belo Sexo Investigada: Onde se prova, a posteriori, que a maioria dos mal-imundos que afligem as senhoras são culpa de flatulências não oportunamente ventiladas, é uma obra satírica que inaugura a colecção, Livros Negros, da editora Guerra & Paz. É de indesmentível qualidade literária esta obra de Jonathan Swift, autor de outras obras clássicas como, As Viagens de Gulliver e A Fábula de Um Barril.

Com data de 1722, o livro agora publicado, pela primeira vez com tradução em português, inclui um poema de Swift, Cassino e Pedro, (tradução de Jorge de Sena), Resoluções para Quando Chegar a Velho, e o panfleto político, Uma Proposta Modesta, preciosidade do humor negro em que o autor defende as vantagens de se comerem as crianças pobres para assim resolver o problema da fome e da miséria da Irlanda do século XVIII.

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…e o futuro nunca aqui está!

Jamais haverá ano novo,
se continuar a copiar os erros dos anos velhos.

(Luís Vaz de Camões)

No final de mais um ano deixo-me embalar no fascínio da melodia vinda das palavras do Sérgio Godinho: “dor em que me vejo de nos ver quase no fim”. Fim de mais um ano ao qual lhe sobrevivemos. O passado já lá vai; é tão útil como um trapo, como poetizava o Eugénio de Andrade Resta-nos desejar o futuro, mas o futuro nunca aqui está… é no presente que a vida acontece!

Como será 2021? Como queremos que seja?

Podemos não escolher o que nos vai acontecer, mas podemos escolher o que fazer com o que nos acontece. É essa a nossa condição de seres livres, livres para decidir o que fazer com o que não somos livres de impedir que nos aconteça. É nesse território de liberdade que usamos a experiência e todo o aprendizado (a memória do que ficou do que aprendemos) para tornarmos a vida mais gratificante e digna de ser vivida. Vida que mais não é do que o ténue instante em que nos demoramos no caminho que nos leva de volta ao sítio donde viemos, o não-ser.

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Bela

A mestria com que Ana Cristina Silva manipula as palavras, obrigando-nos a mergulhar a pique na narrativa ficcionada da vida de Florbela Espanca faz deste romance uma obra prima da literatura portuguesa. Os recursos literários de que a autora se serve para, de forma avassaladora, nos envolver nos intensos cenários psicológicos, nos conflitos emocionais, no surpreendente mundo dos sentimentos dão a este magnífico romance um enredo sublime e um contributo essencial para o conhecimento das mentalidades do princípio do século XX.

A mesma mão amiga que me levou a Salvação desafiou-me a ler Bela, livros de Ana Cristina Silva, de quem o meu amigo Miguel Real diz que “integra com mestria os conflitos psicológicos, fulcro central e raiz dos seus romances, nos conflitos históricos.”

Que prazer que foi ler Bela! Fascinado que estou, não estou à altura de traduzir, minimamente, por palavras minhas as sensações e a catadupa de emoções que Bela em mim gerou. A mestria com que Ana Cristina Silva manipula as palavras, obrigando-nos a mergulhar a pique na narrativa ficcionada da vida de Florbela Espanca faz deste romance uma obra prima da literatura portuguesa. Os recursos literários de que a autora se serve para, de forma avassaladora, nos envolver nos intensos cenários psicológicos, nos conflitos emocionais, no surpreendente mundo dos sentimentos dão a este magnífico romance um enredo sublime e um contributo essencial para o conhecimento das mentalidades do princípio do século XX. (Mentalidades que na década de 60 quiseram abrir pétalas de luz, mas que o regime teimou em reprimir e que só com o Abril de 74 puderam afirmar-se, ainda que muito lentamente.)

Bela é uma viagem aos recônditos de uma alma amordaçada nas conveniências e na moral vigente à época, alma que implode, muitas vezes para evitar estilhaços e conflitos (“tendo desse modo colocado as palavras mais espontâneas numa gaiola.” Pág. 97), tamanha é a vontade de amar, sentir-se amada e encarnar o amor sonhado, ficcionado.

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HISTÓRIAS LINDAS DE MORRER

“Nunca mais tive a ilusão de que podemos controlar o outro. De que é possível modificar as pessoas ao nosso redor. Jamais saberemos se a mudança que às vezes vemos é real ou se o outro apenas encontrou um espaço, longe do nosso olhar e da nossa percepção, em que possa ser o que é.”

Depois de ‘A morte é um dia que vale a pena viver’ (Oficina do Livro, 2019), livro que “é uma reflexão sobre sofrimento, finitude e a necessidade de repensarmos a nossa relação com a morte e com tudo o que ela pode significar.” Ana Cláudia Quintana Arantes surge agora com ‘Histórias lindas de morrer’ (Oficina do Livro, 2020). Lido o primeiro, só podia esperar pelo segundo, que li com muito prazer, e, agora, aguardar por mais histórias, assim a autora tenha prazer em continuar a escrever sobre o que tão bem faz: cuidados paliativos.

Histórias lindas de morrer é o registo pessoal, emocionado e envolvido que Ana Arantes viveu com alguns dos seus pacientes e que nos remetem para a reflexão sobre a nossa própria vida, a vida leva ao fim da vida.

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