Adieu Birkenau

A obra “Adieu Birkenau” (Outubro de 2023, disponível na Wook), excelente banda desenhada, retracta as memórias da autora, contando-as ao sabor de uma visita guiada com os alunos de uma escola.

Em Outubro de 1944, Ginette Kolinka, com 19 anos, foi deportada para o campo de extermínio nazi de Auschwitz II – Birkenau, o maior cemitério do mundo, sem uma única sepultura.

Em 6 de Maio de 1945 as SS (Schutzstaffel) abandonaram o campo de Theresienstadt e no dia 8 de Maio as tropas soviéticas libertaram este campo de concentração.

Ginette Kolinka é libertada. As suas 6 irmãs, 1 irmão e os pais tinham sido mortos.

Só ao fim de 50 anos depois é que Ginette Kolinka quebrou o silêncio, tendo-se dedicado a fazer palestras nas escolas para que a memória não se perca…

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SABUGAL: O QUE FAZER COM 1 MILHÃO E 100 MIL EUROS NOS PRÓXIMOS 3 ANOS?

Senhor Presidente, a fim de votarmos de forma racional, objectiva e esclarecida, informe-nos sobre o que propõe e qual a estratégia para o orçamento de 2027 se tiver um acréscimo da receita de 378 mil euros? Ou, o que deixa de fazer se não tiver esse aumento da receita? E, considerando que nos próximos 3 anos deste mandato poderá ter um somatório de receita, a englobar no bolo do orçamento global, de cerca de 1 milhão e 100 mil euros, qual a estratégia de investimento para o concelho com este elevado montante que justifique os munícipes abdicarem do seu benefício municipal?

1 – Já lá vão 10 anos que publiquei duas reflexões sobre a participação variável, até 5% no IRS, dos sujeitos passivos com domicílio fiscal no respectivo município (Sabugal: que fazer com 1 milhão de euros nos próximos 4 anos?!, e Sabugal: que fazer com 1 milhão de euros nos próximos 4 anos?! Clarificação)

A lei destina às Câmaras Municipais 5% do imposto sobre os rendimentos singulares (IRS) colectado nos respectivos concelhos, verba de que as autarquias podem abdicar, no todo ou em parte a favor dos contribuintes individuais; o que significa que no momento do reembolso os munícipes recebem entre zero ou 5% consoante o município renunciar a parte ou a totalidade a que tem direito.

Todos os anos a Assembleia Municipal deve decidir se esse montante, ou parte dele, fica com os contribuintes ou se entra na receita da Câmara, e todos os anos se tem assumido o compromisso de que, para o ano seguinte, é necessário estudar, analisar e reflectir sobre o assunto. Porém, o que tem acontecido é que todos os anos se tem aprovado prescindir da participação variável de IRS, não tendo havido, até à data, a tal reflexão todos os anos prometida.

2 – Quando a Câmara Municipal prescinde da receita de 5% (que se prevê para 2027 no valor de cerca de 378 mil euros) a favor dos contribuintes, devemos ter em conta que os mais beneficiados pela medida são os contribuintes com maiores rendimentos, os que, teoricamente, menos precisam. Alguns contribuintes com rendimentos baixos nem sequer são afectados pela medida. O que levanta a questão seguinte: não devem, os que têm maiores rendimentos contribuir mais para o ‘bem comum’ para a ‘coisa pública’?

3 – Compreendo certos argumentos, um dos quais está em comentário no meu texto de 2016. No entanto, defendo, sobretudo em concelhos pequenos, que os contribuintes de maiores rendimentos devem participar, abdicando do benefício municipal em favor de uma maior receita para a Câmara Municipal, para esta poder investir em medidas estruturais e desenvolver melhores serviços e mais qualidade de vida para todos os munícipes.

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LIBERDADE PARA DISCORDAR

Os decisores são livres de tomar as suas decisões, obrigatoriamente de forma esclarecida e informada, mas os governados têm o direito de concordar ou discordar. É o preço a pagar por quem decide: uns concordam, outros não.

Era o que me faltava não poder discordar!

A liberdade é um farol complexo, guia para uma multiplicidade de marinheiros e as suas circunstâncias. Podemos olhá-la de diferentes perspectivas: pessoais, sociais, políticas, relacionais, familiares, religiosas, etc. o que dá origem a outras tantas definições e diferentes abordagens filosóficas. Mas falemos das mais simples liberdades, daquelas que no dia-a-dia nos fazem sentir livres ou reféns de uma qualquer ditadura (e são tantas!); ditaduras das quais, muitas vezes, nos conseguimos libertar trocando umas grilhetas por outras. Ou, como dizia o Rui Zink, “quando lhe tiram as grilhetas, a primeira coisa que o prisioneiro faz é queixar-se do frio que tem nos pulsos.”

Pois bem, de entre a multiplicidade de liberdades, uma há que me fez companhia ao longo da minha vida, que me trouxe muitos problemas, que alimentou muitos conflitos, mas que, sempre, sempre me deu noites descansadas na almofada da minha consciência: a liberdade de discordar! Daí não apreciar capelas e viver à sombra delas, rejeitando toda e qualquer agremiação que me obrigasse a pensar como o rebanho, ou que me punisse por não concordar com a manada.

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Cesse tudo o que a Musa antiga canta

Cesse tudo o que a Musa antiga canta

Que outro valor mais alto se alevanta

Ou,

O fim de uma viagem é apenas o começo de outra *

Achei que deste embarcadiço que fui devia escorrer alguma da tinta com que se vai pintalgando a alma que, na hora de partir, não deixo para trás. Com muito agrado, receberei sempre a cor dos pensamentos de quem quiser entrar na palete das cores da minha vida. Levo saudades e espero deixar algumas.

Não abundam as palavras quando o coração bate depressa e as memórias do tempo acariciam as emoções borbulhantes. Afinal de contas, foram muitos anos, muitos momentos, toques, olhares, conversas, sorrisos, até lágrimas…

Muito obrigado aos que partilharam a viagem comigo até este apeadeiro em que me quedo. Eu cheguei ao meu destino. Aos que continuam, boa viagem até ao vosso!

De livre e espontânea vontade, ousei partir, largar amarras e afoitar-me em ondas mais adequadas ao marinheiro que me fiz em artes de navegação, guiado por valores e princípios éticos.

A necessidade de ‘pão’ amarra-nos muitas vezes a trabalhos que detestamos, a funções desagradáveis, a suores não reconhecidos, a lágrimas silenciosas… às vezes engolimos sapos e vomitamos fel amargo nos que nos são mais queridos e que não têm culpa de nada.

Infelizmente, ao que dizem, a culpa terá sido de uma serpente, uma maçã, do Adão e da Eva, que, transgredindo a vontade divina, Deus os castigou a ganhar o pão com suor do rosto (como se o resto do corpo não transpirasse!).

Condenados a ganhar o pão com o suor do rosto e do resto do corpo, há três maneiras de trabalhar na construção de uma qualquer catedral, que exemplifico com esta história:

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Vénus em Chamas – E Deus Instrumentalizou a Mulher

Pedro Vieira, a partir das histórias reais de Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena, imperatriz Teodora, Fillide Melandroni, Joana d’Arc, Harriet Tubman e irmă Lúcia, analisa e reflete sobre o que se fez a essas mulheres em nome de desumanos comportamentos e atitudes, secundados por uma pretensa vontade divina, de que resultou esta magnífica obra: Vénus em Chamas – E Deus Instrumentalizou a Mulher (Penguin Random House Grupo Editorial, Fevereiro de 2026)

É uma obra que nos obriga a pensar sobre a história da Igreja, abalando os pilares de crenças sobre as quais tanto mal se fez e continua a fazer. Porque, muitas, vezes nos esquecemos de que a religião é uma construção humana, é cultural, e, como tal, sujeita à condição e natureza humana.

Por exemplo, no período do início dos anos 900, Teodora Teolifacto (870 – 916), aristocrata romana que controlava Roma e o papado, mãe de Marózia que, com apenas 15 anos, foi amante do Papa Sérgio III, cujo pontificado ficou conhecido como Saeculum Obscurum, também conhecido por Pornocracia, ou o Governo das Prostitutas, Teodora e a filha Marózia fizeram “nomear filhos e amantes para o Trono do Pescador, honrando a longa história do assento papal enquanto lugar de disputa política e familiar, e não lugar de elevação espiritual.” (pág. 94)

O último capítulo do livro é sobre Lúcia, a pastorinha a quem Nossa Senhora apareceu – as Aparições de Fátima – mas que, recentemente, a Igreja substituiu Aparições por Visões, e que – por algum motivo! –, não considera dogma de fé, ou seja, cada um acredita se quiser e se não quiser não faz mal nenhum. Não deixa de ser interessantemente intrigante…

Dou a palavra ao autor Pedro Vieira:

“Era preciso moldar a história, e sobretudo agir. Os terrenos nos quais se dera o fenómeno pertenciam ao pai de Lúcia e foram prontamente comprados pela Igreja. Num ápice, construiu-se uma Capelinha das Aparições, criou-se um jornal (Voz de Fátima), organizaram-se as primeiras orações, benzeu-se a primeira imagem da Virgem, oferecida por um comerciante de Torres Novas em 1920. Em 1922 foi pedido um relatório de apuramento dos factos, modo de oferecer uma pátina de seriedade ao processo, mas este só seria entregue oito anos depois, passando por cima de contradições, erros e distorções. Até a descrição das roupas envergadas pela Senhora de Luz foi alterada. Acontece que, nesse momento, o culto já se tinha consolidado: a realização de missas estava autorizada desde 1921 e as peregrinações ganhavam corpo a cada ano que passava. Nos primeiros tempos, glosando as romarias populares, assistia-se à venda de comes e bebes e começavam a surgir os primeiros sinais de comércio de lembranças, algo a que a Igreja deitou mão. De ferro. Foram reguladas as atividades, reforçando a vertente de santuário e afastando o imaginário de terreiro de festas religiosas — o vinho foi interditado — e foi criado um manual do peregrino de Fátima (mesmo numa região cuja taxa de analfabetismo rondava os 88%), no qual se instava o verdadeiro devoto a «fugir de tudo o que possa desgostar a Virgem Santíssima, como namoros, críticas ou palavras indecentes».

Somaram-se as procissões organizadas, a prática do pagamento de promessas, os primeiros martírios de joelhos, a presença sucessiva de congregações e prelados de todo o país, a construção de um hospital-sanatório. Com o tempo, refinar-se-ia todo um aparato financeiro, que tem garantido dinheiro sem conto e uma verdadeira indústria das aparições.” (pág. 207-208)

Sinopse:

Despir as mulheres para as expor em público é um costume antigo – e não estamos apenas a falar de roupa.

Há séculos que a existência das mulheres é terreno aberto para todo o género de delírios e desaforos dos homens. As suas vidas – terrenas ou espirituais – foram e são instrumentalizadas ao sabor das novas ordens e dos sistemas de poder que frequentemente contrariam a nossa natureza, com particular prejuízo para a metade feminina da humanidade.

Através de uma narrativa híbrida, entre reconstituição histórica ficcionada e investigação, Pedro Vieira escreve sobre sete mulheres que são todas as mulheres, sujeitas ao poder deles, cujas existências foram contadas e adulteradas para servir uma narrativa ardilosa que bloqueia com eficácia qualquer tentativa de emancipação coletiva.

Vénus em Chamas recupera as histórias reais de Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena, imperatriz Teodora, Fillide Melandroni, Joana d’Arc, Harriet Tubman e irmã Lúcia, para refletir sobre a forma como a História e a Arte as apresentaram, representaram e imolaram, tantas vezes despindo-as de qualquer agência ou autoridade sobre si mesmas.

Boas leituras!

Norberto Manso

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História do Catolicismo

Que relações a Igreja mantém com os poderes políticos? Quais são as afinidades do pensamento cristão com a cultura da época? Que olhar têm os católicos sobre a visão global do mundo que domina a sua época?

História do Catolicismo, de Yves Bruley (Guerra e Paz Editores, Abril 2026) é um pequeno livro (151 páginas) para a tão volumosa e complexa História do catolicismo. Talvez seja, por isso mesmo, que a leitura desta obra nos proporciona conhecer os pilares da Igreja, no espaço e no tempo, numa visão global, com as continuidades bem encadeadas da sua História.

Para o autor, o catolicismo, ao logo de dois mil anos, apresenta três princípios de unidade: no espaço, na fé e no tempo, e, “Ao perpetuar estes três princípios complementares, o catolicismo tem enfrentado, ao longo da sua História, três outras questões recorrentes: que relações a Igreja mantém com os poderes políticos? Quais são as afinidades do pensamento cristão com a cultura da época? Que olhar têm os católicos sobre a visão global do mundo que domina a sua época?

Estes tês princípios de unidade e essas três questões recorrentes formarão, de acordo com modalidades variáveis, a trama de cada um dos capítulos sucessivos desta obra, que será dividida em seis grandes períodos históricos.” (pág. 11)

A Igreja, ao longo dos séculos, passou por vicissitudes várias, a que não são alheios actos e comportamentos pouco dignificantes, escândalos, crimes, violência, Inquisição, Cruzadas, perseguição, tortura e execução de não crentes, abundantes abusos sexuais, simonia, nicolaísmo, enfim, uma autêntica história de horrores que nem a faustosa indumentária exterior do clero – para expressar a dignidade e respeitabilidade dos cargos – conseguia ocultar ou encobrir.

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Mitos da Psicologia – O que a ciência realmente nos diz sobre a mente

Este livro não pretende vender certezas reconfortantes, mas sim oferecer algo mais valioso: a possibilidade de pensar de forma mais crítica, informada e exigente sobre as ideias que nos rodeiam. Com base na evidência científica mais recente, mas recorrendo a uma linguagem simples e acessível, o autor mostra-nos como o pensamento crítico pode ser uma ferramenta essencial para compreender melhor os outros, as suas decisões e até nós próprios.

Já lá vai algum tempo (1997) que Carl Sagan me deliciou com o livro, Um Mundo Infestado de Demónios – A ciência como uma luz na escuridão, obra fundamental de defesa do pensamento crítico e do método científico contra a pseudociência, os mitos, a superstição e a desinformação a que cada vez mais estamos sujeitos. Porque, só através da ciência podemos preservar a democracia e a liberdade, evitando um retorno aos obscurantismos de outras épocas.

Mais recentemente (2014), David Marçal, outro cientista que procura pensar e não se deixar levar pelas crenças, deu à estampa Pseudociência, leitura obrigatória para quem se quiser confrontar com as certezas que fazem a vida de muitos.

Recentemente (Janeiro de 2026), foi publicado o livro, Mitos da Psicologia – O que a ciência realmente nos diz sobre a mente (Manuscrito / Editorial Presença, 2026), obra de Francisco Miranda Rodrigues, psicólogo e ex-bastonário da Ordem dos Psicólogos.

Com prefácio de David Marçal – intrépido combatente da pseudociência –, o livro analisa um conjunto de mitos, 16 no total, tentando desmontar em cada um deles, as origens desse mito, o que a ciência e os especialistas dizem e algumas reflexões para pensarmos o assunto.

Segundo o autor, há duas razões para formarmos convicções erradas: 1 – as ideias circularem rapidamente e estarmos muito expostos a informação falsa, porque a desinformação tem uma difusão muito eficaz; 2 – o modo como pensamos, e apenas excepcionalmente recorrermos a um tipo de pensamento lento, deliberado, racional e que exige empenho mental. No dia-a-dia usamos sobretudo um tipo de pensamento que é rápido, intuitivo e automático, pois não exige esforço consciente.

A ciência, mais do que corpus de conhecimento, é sobretudo uma maneira de pensar, de ser-se crítico, de estar sempre alerta e questionar. No dizer de Plutarco: A mente não é um recipiente a encher, mas um fogo a acender.

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Porque hoje é o Dia Mundial do Livro!

Devemos ler para nos abrirmos ao mundo, para nos tornarmos mais humanos, para aprendermos o desconhecido, para aumentarmos o nosso espírito crítico, para não nos deixarmos estupidificar pela televisão, para nos distinguirmos melhor dos chimpanzés, que são tão parecidos connosco

Nas grandes deslocações, seja de combóio, de autocarro ou de avião, gosto de utilizar os transportes públicos: mais baratos, maior conforto, melhor aproveitamento do tempo de viagem e menores riscos. E, sempre que viajo, caprichosamente percorro o corredor do autocarro, do combóio e do avião para observar o que as pessoas estão a fazer e como estão a aproveitar o tempo de viagem (fico sempre na dúvida se faço estas pesquisas porque sou Antropólogo ou se me tornei Antropólogo por vício de observação e de tentativa de compreender o outro).

Entre outras ilações, fixo-me amiúde no facto de não encontrar – ou só muito raramente! – ninguém a ler um livro ou um jornal. E lá vem o argumento de que, actualmente, se lê muito nos telemóveis… mas não é a mesma coisa, e o que vejo não é as pessoas a ler nos telemóveis: mexem mais os dedos do que os olhos!

Entristece-me saber que se lê pouco, que se escreve mal, que grassa o desconhecimento científico e a pseudociência; que o saber científico é cada vez mais trocado pelo conhecimento alternativo ou pós-moderno; entristece-me que papagaios populistas ocupem espaços de desinformação, de mentira aproveitando exactamente o facto de as pessoas não lerem, não estimularem o sentido crítico, a objectividade e a ciência. E encanita-me, sobremaneira, o aviltamento da língua portuguesa que os cheganos levam a cabo na sua alarve presença nas redes sociais…

Por tudo isto, e mais que não digo, tal como o filósofo Fernando Savater, recomendo ler muito porque: “Devemos ler para nos abrirmos ao mundo, para nos tornarmos mais humanos, para aprendermos o desconhecido, para aumentarmos o nosso espírito crítico, para não nos deixarmos estupidificar pela televisão, para nos distinguirmos melhor dos chimpanzés, que são tão parecidos connosco.”

Norberto Manso

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PARTIDA

Partindo da história de um casal de namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e que decide tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a morte.

Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira com um final triste».

Partida, de Julian Barnes (Quetzal Editores, Janeiro de 2026) é uma obra fascinante, que, no dizer do autor de 78 anos, “este vai definitivamente ser o meu último livro – a minha partida oficial, a minha última conversa convosco.” E que conversa!

De uma fabulosa lucidez em miscelânea de humor e amor, Julian Barnes envolve-nos na sua escrita com as suas reflexões, obrigando o leitor a parar para melhor saborear as suas palavras e deliciar-se a pensar com o que ele pensa, ou que diz pensar ou que nós pensamos que ele pensou…

Pode dar-se o caso de querermos dizer coisas diferentes quando falamos de amor e felicidade, no âmbito do casal, bem como no da sociedade. Especialmente agora. Quando cresci na Inglaterra suburbana da classe média, a nossa família não conhecia ninguém que fosse ilegítimo ou divorciado ou homos-sexual; tudo era heteronormativo, e ninguém consultava o psiquiatra a não ser que fosse verdadeira e profundamente louco. (Havia algumas exceções menores: uns poucos professores primários que julgávamos meio duvidosos, assim como um tio-avô que tinha voltado a casar depois de a sua primeira mulher ser internada num manicómio.) Agora que vou a caminho do fim da vida, mais crianças nascem neste país fora do casamento do que dentro; o divórcio, a homossexualidade e consultar um psiquiatra são coisas rotineiras, além de que o género se tornou mais fluido. Tudo isto é tão bem-vindo como tardio, e podemos ocasionalmente sentir muita pena por aqueles que nos séculos passados se viram horrivelmente encurralados na prisão do anseio sexual, religioso e social. Embora fosse impertinente pensar que compreendiam menos bem o amor. Falavam, escreviam e faziam canções sobre esse sentimento de uma maneira seguramente tão intensa como nós, talvez até mais.” (pág. 150)

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A Elegância do Ouriço

Os pequenos prazeres da existência, esses instantes em que, por vezes, tudo parece perfeito, são aqui captados com nostalgia intemporal. Espirituosa, inteligente e com um forte lado filosófico, esta história tem o seu quê de japonês: é leve, delicada, poética.

A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery (Editorial Presença) é um livro muito interessante, cuja leitura me fascinou. No entanto, deste não me é fácil escrever, porquanto muitos outros já disseram o que eu não conseguiria dizer tão bem.

Pelo que, justifico-me com o senhor de Montaigne: “Faço dizer aos outros aquilo que não posso dizer tão bem, quer por debilidade da minha linguagem, quer por fraqueza dos meus sentidos.”

Assim, dou a palavra aos outros:

Sinopse: Número 7 da Rue de Grenelle: o endereço é burguês, os moradores são gente rica e tradicional. Tudo parece um quadro em que não há movimento: cristalizado, bem organizado, eterno. Mas há duas pessoas que parecem não encaixar.

Para começar, temos Renée, que parece a porteira clássica: baixota, rezingona e sempre pronta a fechar a porta na cara de alguém. Na verdade, estamos na presença de uma observadora perspicaz, ora terna, ora ácida, e uma autodidata que esconde bem o seu verdadeiro eu: uma grande apaixonada por livros e arte.

E depois temos Paloma, a filha mais nova da família Josse, que destoa dos pais e da irmã. De tal modo, que se impõe um desafio terrível: ou descobre algum sentido para a vida, ou comete suicídio no dia em que fizer treze anos. Mas, enquanto a data não chega, mantém dois conjuntos de anotações pessoais e filosóficas, os Pensamentos profundos e o Jornal do movimento do mundo: são os relatos das suas experiências íntimas e da vida no prédio.

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