A VIDA É BREVE, A MORTE ETERNA

“E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.”*

É tão curto o espaço entre sermos crianças e sermos demasiado velhos… a vida é tão breve… mas raramente nos lembramos disso. Valham-nos, ao menos, os dias do calendário para nos recordarmos da brevidade da vida.

As celebrações do dia de Todos Os Santos – 1 de Novembro – e do dia de Finados, ou dos Fiéis Defuntos – 2 de Novembro – convocam-nos a reflectir e a lembrar os que faleceram.

Somos, nestes dias, chamados à reflexão Não diria à reflexão sobre a morte, mas sobre a vida, sobre a precariedade da nossa vida e sobre a vida dos que já partiram e cujas memórias ainda nos acompanham nesta efémera caminhada.

Contudo, para reflectir e lembrar os falecidos não precisamos de o fazer em manada processional aos cemitérios. Afinal, os cemitérios estão todos os dias abertos e, que se saiba, o que resta dos cadáveres sepultados, ali continua, dia e noite, resguardados por altos muros. Também não é necessário nestes dias fazer ostensivos arranjos florais decorativos nas campas, campas tantas vezes ao abandono durante os restantes dias do ano. A memória dos falecidos passa bem sem essas coisas que servem mais o orgulho e a vaidade dos vivos do que a memória dos mortos.

Os mortos não nos falam da morte; do lado de lá não nos chegam notícias; do ‘depois da morte’ nada sabemos. Apenas sabemos que não somos eternos e que estamos condenados a que a nossa vida tenha um fim. A morte é o fim do caminho, a foz da vida, vida que apenas podemos prolongar de forma provisória. E nisto está, talvez, a grande diferença entre o Homem e os outros animais: nós sabemos que vamos morrer e nada nos impede de o pensarmos, de o sentirmos.

Façamos o que fizermos da vida, sabemos que no final temos de morrer, sem saber como, nem quando. Estar sempre a pensar nisto, pode ser doloroso e doentio. Nunca pensar é inconsciência.

A fragilidade da vida, a sua precariedade e a sua brevidade, não nos deve levar a temer a morte. Talvez o mais importante seja pensar o ser, mais que o não ser. Amar a vida apesar de nos sabermos mortais.

“(…) abraça-me, a vida é muito breve e ninguém sabe se existe uma eternidade para as nossas almas frágeis, talvez só tenhamos esta vida.”**

Uns pensam a morte como sendo o NADA, nada definitivo, nada absoluto, o fim! Outros pensam a morte como sendo o princípio de uma outra vida, passagem: “A vida não acaba, apenas se transforma.” Mas, independentemente do lado em que nos colocarmos, continuaremos a não estar dispensados de morrer, nem estaremos mais esclarecidos sobre o significado da morte.

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O Mal Sobre a Terra – história do grande terramoto de Lisboa

“Durante as celebrações da festa de Todos os Santos, no dia 1 de Novembro de 1755, pelas 9:30 h da manhã [Sábado], a terra rasgou-se e rugiu. Um maremoto tragou uma parte da cidade. Desaparecia, no curtíssimo espaço de apenas sete minutos, parte considerável da História que aí tivera lugar nos últimos 50 anos, no reinado de D. João V, o «rei velho».” (pág. 19)

O Mal Sobre a Terra – história do grande terramoto de Lisboa, de Mary Del Priore, (Penguin Random House, Lisboa, Outubro de 2020) é uma obra muito esclarecedora sobre o terramoto de 1755 e, sobretudo, dos ambientes político, social, económico, cultural, religioso e de costumes dos anos que precederam o terramoto.

O prefácio de Miguel Real, meu amigo a quem devo a curiosidade pela aquisição desta obra, é mais um motivo e estímulo à leitura. Acresce que o Miguel Real não tem dúvidas de “ser O Mal Sobre a Terra – história do grande terramoto de Lisboa, o melhor livro em língua portuguesa sobre o Terramoto de Lisboa.” E sendo Miguel Real um grande conhecedor e até escritor que sobre o tema já tanto se debruçou, seria, intelectualmente, pecaminoso olvidar este livro.

No dizer de Miguel Real, a autora, Mary Del Priore, “é, além de historiadora firmada, uma óptima narradora, a sua escrita encanta o leitor […], uma encantatória capacidade de escrita narrativa, ora lírica, ora dramática, por vezes trágica, que persuade o leitor não só a acompanhar as descrições factuais do terramoto de 1755, emocionando-se com elas (acontecimento raro no livro de um historiador) como a enlevar-se inconscientemente com a beleza do português ” E sobre o livro: “é mesmo história. Porém, sob e sobre a narração dos factos, brilha nele, não o acto efabulatório da criação romanesca, mas o acto de representação escrita da Vida.” (pág. 11)

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Encontro marcado com a morte

Há um conto fascinante, (que julgo ser do Norte de África), que tem sido transmitido de pais para filhos e que me parece ilustrar muito bem a imprevisibilidade da hora da morte (“estai preparados que não sabeis o dia nem a hora”!):

Parece ter havido, em tempos muito recuados, um homem, muito considerado na sua comunidade, forte e robusto, grande proprietário de terras e gado, rico e poderoso, cuja fama ultrapassava as fronteiras da terra onde vivia.
Certa manhã, ao levantar-se da cama, foi surpreendido com a visita inesperada da Senhora Morte, personificada num esqueleto, sem corpo e coberto por um manto negro. Visita inesperada porquanto a sua “saúde de ferro” fazia prever uma longa e feliz vida.
A Morte dirigiu-se ao homem e disse-lhe:

Vim visitar-te para te anunciar que hoje mesmo, às cinco horas, te virei buscar!

Como a Morte nunca está para longas conversas, saiu imediatamente, deixando o nosso amigo apavorado. Apavorado, mas decidido e determinado a fugir para bem longe, de modo a faltar ao encontro marcado, para o qual não se sentia preparado. Continuar a ler

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A Vida, véspera da morte

viver profundamente e sugar todo o tutano da vida. Aniquilar tudo o que não é vida. E não quando eu morrer descobrir que não vivi

“A vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça.” (Voltaire).

“Et nous ferons de chaque jour toute une eternité d’amour, que nous vivrons avant mourrir.” (Georges moustaki).

Morrer é nunca mais estar para os amigos. E aqui o nunca ganha uma dimensão e uma força única. Nunca, mas mesmo nunca mais se estará para os nossos amigos: não nos voltaremos a ver, a olharmo-nos olhos-nos-olhos, a tocar-nos, a admirar-nos nos silêncios e nas palavras, a sorrir, a zangar-nos, a estar…

Dos que partem ficam-nos as memórias (as pessoas morrem, mas não nos deixam!) e a crença que, depois de nós morrermos, viveremos nas memórias que deixarmos. E seremos eternos na terra enquanto alguém em nós pensar.

As recordações que deixarmos serão o que nós fizermos da nossa vida. E será, talvez, útil pensarmos como queremos ser recordados. Se outros motivos não há para sermos bons, que ao menos o sejamos para assim sermos recordados. Afinal, de que vale ao homem ganhar a sua vida se no fim perde a sua alma? Ou seja, de que vale o egoísmo, a ganância, o desrespeito pelos outros, se no fim deixamos este mundo despojados de tudo?

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Morrer é um destino, nascer uma sorte

A morte dos que me são próximos inquieta menos que o seu sofrimento. A minha própria morte menos que a deles. É talvez um ganho da idade, ou da paternidade. A minha morte só me roubará eu mesmo; é por isso que me roubará tudo e não me roubará nada: pois já não haverá ninguém para perder seja o que for. A morte dos outros é mais real, mais sensível, mais dolorosa. Infelizmente, isso não nos dispensa de também a afrontar.

André Comte-Sponville é um filósofo, de escrita fluente e acessível, autor de vários livros. Furtei de Apresentações da Filosofia (Instituto Piaget, Lisboa, 2001, pág. 49-50) esta longa transcrição, tão apropriada a este tempo de reflexão, cujo prazer de ler quero convosco partilhar.

“Uns vêem na morte uma salvação, que talvez venham atingir, ou ainda, a expressão é de Platão, «um belo risco a correr». Os outros, que nada esperam senão o nada, vêem todavia nela mais e menos que um repouso: o desaparecimento da fadiga. As duas ideias são doces, ou podem sê-lo. É para isso que a ideia da morte pode servir: para tornar a vida mais aceitável, pela esperança, ou mais insubstituível, pela unicidade. Razão, em ambos os casos, para não a desperdiçar.

Faço parte daqueles a quem o nada parece o mais provável – tão provável que, na prática é quase uma certeza. Acomodo-me como posso, e, no fundo, não muito mal. A morte dos que me são próximos inquieta menos que o seu sofrimento. A minha própria morte menos que a deles. É talvez um ganho da idade, ou da paternidade. A minha morte só me roubará eu mesmo; é por isso que me roubará tudo e não me roubará nada: pois já não haverá ninguém para perder seja o que for. A morte dos outros é mais real, mais sensível, mais dolorosa. Infelizmente, isso não nos dispensa de também a afrontar. É o que se chama o luto, que Freud mostrou ser, antes de mais, um trabalho sobre si mesmo, como todos sabemos, e sem o qual ninguém poderia nunca reconciliar-se com a existência. «Lembremo-nos, escreve Freud nos Ensaios de psicanálise, do velho adágio: Si vis pacem, para bellum. Se queres a paz, prepara-te para a guerra. É tempo de o modificar: Si vis vitam, para mortem. Se queres ser capaz de suportar a vida, prepara-te para aceitar a morte.» Suportar a vida? Não é suficiente. Se queres amar a vida, prefiro eu dizer, se queres apreciá-la lucidamente, não esqueças que morrer faz parte dela. Aceitar a morte – a própria, a dos próximos – é a única maneira de ser fiel à vida até ao fim.

Mortais e amantes de mortais: é o que somos e o que nos fere. Mas essa ferida que nos faz homens, ou mulheres, é também o que confere à vida o seu maior valor. Se não morrêssemos, se a nossa existência não se destacasse assim sobre o fundo obscuro da morte, a vida seria tão preciosa, rara, perturbadora? «Um insuficiente pensamento sobre a morte, escrevia Gide, não deu valor suficiente ao mais pequeno instante da tua vida.» Temos portanto de pensar na morte para melhor amar a vida – em todo o caso, para a amar como ela é: frágil e passageira -, para melhor a apreciar, para melhor a viver, (…)”

Norberto Manso

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Crónica do Rei Pasmado

“A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água.”

Visitei a minha estante dos livros esquecidos – mas não para esquecer – onde se arrumam aqueles cuja leitura depende de melhores dias, melhores oportunidades ou, quiçá, de ‘à falta de melhor’. E lá estava o livro, Crónica do Rei Pasmado, de Gonzalo Torrente Ballester, obra que desde a sua aquisição em 2002 hibernava nos livros esquecidos. Muitas vezes comecei a sua leitura e outras tantas desisti. As primeiras páginas não me agarravam, não me absorviam e desistia. Desta vez agarrei o livro determinado a lê-lo até ao fim (o autor merecia-me consideração) ou então arrumá-lo de vez e para sempre. De peito aberto, como quem não gosta de ser derrotado por um livro, resisti ao primeiro embate de frouxidão literária.

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‘Uma História de Espanha’… que também – tão bem – é de Portugal!

séculos de guerra, violência e opressão sob reis incapazes, ministros corruptos e bispos fanáticos, a guerra civil contra o mouro, a Inquisição e o seu infame sistema de delação e suspeita, a insolidariedade, a inveja como indiscutível pecado nacional, a falta atroz de cultura que nos pôs sempre – e continua a pôr-nos – nas mãos de pregadores e charlatães de qualquer índole

Uma História de Espanha (Edições Asa, 2020), a mais recente obra de Arturo Pérez-Reverte, resulta da compilação de 91 textos publicados semanalmente entre 5 de Maio de 2013 e 28 de Agosto de 2017. No dizer do autor, escreveu para se “divertir, reler e fruir; de um pretexto para olhar para trás desde os tempos remotos até ao presente, reflectir um pouco sobre isso e contá-lo por escrito de uma forma pessoal, amena e pouco ortodoxa com a qual […] passei momentos muito bons a ouvir grasnar os patos, pois cada um desses artigos alcançou ampla difusão nas redes sociais.” (p.236)

Não é A História de Espanha, mas sim Uma História de Espanha, ou seja, uma narrativa muito pessoal, “um olhar próprio, subjectivo, feito de leituras, de experiência, de bom senso na medida do possível. […] a visão, frequentemente mais ácida do que doce, de quem […] sabe que ser lúcido em Espanha aparelhou sempre muita amargura, muita solidão e muita desesperança.” (p.236); um retrato irónico e mordaz de Espanha ao longo do tempo, escrito numa linguagem a cativar os jovens à leitura e ao conhecimento da História, a que o humor não é alheio e que dá gosto ler…

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Escrever bem não é tarefa fácil!

Para conhecer as regras da escrita, estes dois livros são uma ajuda muito interessante; vale a pena ler e manter debaixo de olho para consulta.

Escrever bem não é tarefa fácil! é a justificação de que muitos dos que escrevem mal – já nem falo dos que escrevem muito mal ou nem sequer sabem escrever – usam e abusam, justificação por vezes acasalada na desculpa sobrenatural de não terem sido brindados pelos deuses do dom da escrita.

Erros de palmatória, daqueles que fariam as delícias de um qualquer professor de escola ‘primária’ com apetitosa prontidão ao uso da ‘menina dos cinco olhos’, grassam por aí nos espaços sociais, profissionais e de comunicação privada. É de bradar aos céus! Pior, se a isso juntarmos doutas qualificações académicas, verdadeiros atestados de garantia e de obrigação de bem escrever – ou pelo menos, de não escrever tão mal.

Considero que para escrever menos mal, ou, se quisermos, para escrever bem, é necessário seguir três regras:

1 – Ler Muito. Ler, melhora, aumenta e diversifica o vocabulário; ao ler descobrimos e ficamos a conhecer belezas narrativas fascinantes, estilismos literários, poética das palavras, subtiliza de imagens, objectividade e sentido transformativo do real…

2 – Pensar bem; quem não pensa bem (quem não sabe pensar), não organiza bem as ideias e, como tal, não pode escrever bem. Más tintas e motivos vulgares não fazem boas pinturas. Porque escrever é pôr no papel o que temos na cabeça, convém termos coisas boas e organizadas, senão no papel apenas ficam rascunhos ininteligíveis;

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O AMOR QUE SE FAZ, O QUE SE FAZ DO AMOR?

Sexo e amor andam de braço dado numa relação muito complexa, o que não quer dizer complicada. Podemos amar sem fazer amor; podemos fazer amor sem amar; podemos fazer amor com quem amamos. Se calhar, muitos já passaram, de alguma maneira, por qualquer uma das situações. Mas a vida ganha especial sentido sempre que fazemos amor com quem amamos.

Tropecei neste texto teclado há mais de uma década. Ainda me faz sentido o que na altura escrevi e que agora partilho:

Recordo-me de, no início dos anos 80, altura em que ainda se respirava o cheiro dos cravos e permaneciam vivos alguns aromas da revolução de Abril, um professor ter sido alvo de procedimento disciplinar por, alegadamente, pregar aos seus alunos que: O amor não existe. É preciso fazê-lo!

Fazemos amor porque amamos ou amamos porque fazemos amor? No entender do tal professor o amor não existe enquanto expressão de sentimentos. A prática sexual é que origina a terminologia do amor que, assim entendido, é apenas uma palavra sem o correspondente processo afectivo; uma invenção das palavras a que só há uma forma de lhe dar existência: fazendo.

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A morte é um dia que vale a pena viver

As perdas simbólicas podem ser mortes mais difíceis de lidar do que a morte real. Há algo vivo ainda! E acreditamos que ainda podemos ressuscitar o que morreu. Mas, Sem a certeza do fim, sem a certeza de que algo acabou, é difícil partir para outro projecto, para outra relação, para outro emprego. Ficamos presos num limbo do «deveria», do «poderia».

É como se ficassem presos no canal do parto. Saíram de um lugar, mas recusam-se a chegar a outro. Estacionam na perda.

Com um título muito adequado ao conteúdo, “A morte é um dia que vale a pena viver” (Oficina do Livro, 2019), o livro de Ana Cláudia Quintana Arantes obriga-nos a uma profunda reflexão sobre o sentido da vida, tal como sugere o subtítulo: “Cuidar de alguém é a maior vitória perante a doença e é um excelente motivo para procurar um novo olhar para a vida”.

Arriscando a acusação de pecador por soberba e arrogância, diria, mesmo assim, que é uma obra de leitura obrigatória para todos os que estão vivos e que se sabem mortais, ou seja, conscientes de que um dia se irão deparar, no fim do caminho, com um muro onde chegados apenas há passado. Recomendação extensiva a todos os que de perto trabalham com gente em fim de linha. Porque, “viver como se a morte não existisse, não nos tem feito mais felizes.”

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