SEXUALIDADES: infidelidades – III / IV

Mas o frágil edifício do amor deles desmoronar-se-ia imediatamente porque esse edifício repousava sobre o pilar único da sua fidelidade e os amores são como os impérios: desaparecendo a ideia sobre a qual estão construídos, também eles desaparecem.

Recebi esta mensagem de uma leitora, talvez das poucas que leu os dois últimos textos:

“…o problema é que depois de ter estado com outra pessoa, e já lá vai tanto tempo, não me perdoei ainda a mim própria o que fiz, não me perdoo por ainda não ter contado ao meu marido e, muitas vezes, quando estou com ele na intimidade, os remorsos e a culpa paralisam-me o desejo e impedem-me o prazer… Gostaria tanto que nada tivesse acontecido. Quero tanto ultrapassar este sentimento de culpa. É que eu continuo a amar o meu marido; o amor que sinto por ele nunca o pus em causa. Será este o preço que tenho de pagar por uma loucura a que não soube resistir?”.

Viver é desenhar sem borracha, dizia o poeta Millôr Fernandes. Na realidade, a vida humana só acontece uma vez e não temos nem segunda nem terceira oportunidade de apagar e refazer o que nos aconteceu. Mal ou bem, o que fizemos, fizemos. Podemos gerir a situação, aprender com os erros, esconder o mal que fizemos, mas nunca, nunca conseguiremos que a borracha apague o que foi feito. Não há regresso ao passado. Se pudéssemos viver duas vidas tudo seria mais fácil: uma vida seria para aprender e errar e outra para se agir bem.

Na mensagem da leitora parece haver a confissão de duas infidelidades: a infidelidade do envolvimento sexual com outro e a infidelidade de o esconder ao marido. Talvez na sua cabeça não saiba qual das duas é a mais grave. E quando o marido souber (se algum dia o chegar a saber) o que é que o magoará mais? O envolvimento com o outro (do qual vai querer certamente saber todos os pormenores) ou o ter sido durante tanto tempo enganado, iludido? E a pergunta impõe-se: é preferível que o outro seja feliz na ignorância ou assumir a verdade que pode destruir o casamento? Não há receitas; cada um de nós encontra as respostas que acha mais adequadas e aprende a construir o seu próprio caminho. E, se nesse percurso se omitiu (diferente de mentir) durante tanto tempo o que aconteceu, poderá a verdade ser sacrificada em favor da harmonia conjugal? E será que o marido não sabe mesmo? Será que não está apenas a fingir que não sabe a fim de preservar a vida a dois? Muitas vezes as coisas até se intuem e delas não se quer falar; as palavras, depois de ditas, podem fazer grandes estragos.

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SEXUALIDADES: infidelidades – II / IV

“Nunca enganei a minha mulher. O mérito não é nenhum: amo-a.”
(Georges Duhamel)

Terminei o último texto dizendo que a infidelidade só é um problema quando os dois prometem ser fiéis e, pelo menos um, não o é.

Segundo Kinsey (1948 e 1953) cerca de 30% dos homens e 20% das mulheres apresentavam actividade sexual extraconjugal. Outros estudos mais recentes apontam para 30% a 60% dos homens e 20% a 50% das mulheres. Mas, mais do que estas estimativas, é interessante verificar que as relações extraconjugais não acontecem tanto no início do casamento. É à medida que o tempo passa que os casais vão ficando mais tolerantes, e com a duração do casamento aumenta a frequência de actividade sexual fora do casal. Quando duas pessoas estabelecem entre si laços amorosos que se traduzem num relacionamento afectivo-sexual, elas, porque se amam, não deixam espaço a outros amores; têm um uso exclusivo, mutuamente exclusivo, do corpo do outro. Amor e sexo fundem-se num só e se falha o amor deixa de haver sexo; se falha o sexo o amor desaparece.

Normalmente, não se pode ser infiel no amor porque só se ama uma pessoa de cada vez, e, ou se ama ou não se ama. Talvez, por isso, o que dói não é o outro ter uma relação sexual extraconjugal, mas o medo de que o outro já não nos ame, por amar outro. Se calhar, a infidelidade masculina faz sofrer mais a mulher quando a infidelidade do homem acontece com a vizinha do lado, do que com uma prostituta. Com a prostituta está implícito o não envolvimento amoroso ao passo que com a vizinha, nunca se sabe! Uma coisa é certa, quem fica magoado com a infidelidade do outro reserva-se o direito de exigir não ser magoado. E, se o for, tem o direito de não querer e exigir não continuar a ser magoado.

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SEXUALIDADES: infidelidades – I / IV

“se os homens têm mais parceiros sexuais do que as mulheres, como todos os estudos indicam, ou há umas quantas mulheres hipersexuais que andam a fazer sexo com uma quantidade enorme de homens, ou os homens estão a exagerar as suas conquistas e as mulheres a exagerar as suas virtudes.” (Helen Fisher)

O envolvimento amoroso entre duas pessoas desenvolve-se lentamente, percorrendo os caminhos e as veredas do conhecimento mútuo. Desse conhecimento surge, por vezes, a fadiga relacional, partindo cada um para novos envolvimentos. Outras vezes, o conhecimento que se estabelece confirma a relação, aumenta a confiança e solidifica-se o amor.

O casamento, que é actualmente a forma mais comum de institucionalizar o amor, é selado no altar, com juras de amor eterno (o amor é eterno enquanto dura) e de fidelidade.

A princípio, quase sempre as coisas correm bem e os amantes usufruem do prazer da vida comum. O amor e os afectos abafam os pequenos problemas da vida.

Os dias vão passando, os filhos aparecem, a rotina instala-se, surgem pequenos desentendimentos: O amor e o que ficou dele não chegam para afastar o frio de quatro paredes (no dizer de Eugénio de Andrade).

O casal, que antes se despia para fazer amor, agora despe-se para dormir. Já não se faz amor quando se quer mas quando se pode, muitas vezes para alívio do desejo, num trágico afastamento do requinte imaginário da elaboração do desejo. Quanto menos amor se faz menos apetece fazer e muitas vezes só se faz porque há muito tempo que ele não acontece. O Sexo deixa de ser gratificante escancarando as portas para novos relacionamentos. Ou, como refere Ethel Person, talvez a forma mais triste e desencantada seja quando os sentimentos desaparecem e os antigos amantes permanecem juntos numa relação vazia e convencional.

Para tentar compreender o assunto, sugiro a seguinte leitura interpretativa:

1 – A natureza humana determina o impulso sexual. A cultura determina o processo em que esse impulso se materializa. Ou seja, a necessidade básica de actividade sexual nos seres humanos manifesta-se junto dos possíveis objectos de desejo ainda que a sociedade limite a sua concretização. Um casal, mesmo tendo uma actividade sexual gratificante, não exclui o desejo sexual para os outros, não elimina o impulso para a variedade e a novidade. O bom sexo, o sexo gratificante não é exclusivo do sexo com afecto. As relações extraconjugais e o sexo comercial comprovam-no!

2 – O homem, mais do que a mulher, cresce no seio de uma cultura masculina que o induz à possibilidade de actividade sexual sem afecto. Daí ser, muitas vezes, o impulso sexual canalizado para relações esporádicas, sem compromisso, para a novidade e até para o sexo comercial. A mulher, em termos meramente biológicos, também tem impulso sexual indeterminado que se pode traduzir na possibilidade de obtenção de prazer na actividade sexual com parceiros sexuais ocasionais e sem afecto. No entanto, ela cresce numa cultura que a induz à actividade sexual com afecto, penalizando-a sempre que ele ocorre fora de um relacionamento amoroso. Digamos que a mulher faz sexo com quem ama e o homem ama com quem fez sexo. É, também por isso, que a infidelidade masculina é socialmente mais bem aceite que a feminina.

3 – A infidelidade conjugal, ou relacionamento extraconjugal, caracteriza-se por ser uma relação sexual entre duas pessoas das quais uma, pelo menos, é casada com outra pessoa. E, como vimos, as relações extraconjugais são perfeitamente naturais e são fonte de prazer, tanto para o homem como para a mulher.

4 – Não estou com tudo isto a defender as relações extraconjugais ou, muito menos, a promover a promiscuidade sexual. Quero com isto dizer que homens e mulheres nascem com um impulso sexual, que esse impulso não está (em termos de biologia humana) orientado para um único parceiro ou parceira com exclusão de todos os outros; que o impulso para a actividade sexual (mais uma vez em termos biológicos) é anterior às práticas socialmente aceites; e que a actividade sexual é culturalmente orientada para relações de facto, preferencialmente no casamento.

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O Poder é Afrodisíaco!?

Existe uma consciência num número cada vez maior de pessoas que o nosso futuro depende de nós! Não se espere que sejam os outros a dizer bem e a implementar positividade e optimismo e acção na comunidade… A cada vez maior consciência que a sociedade civil vai tendo de que é ela (sociedade civil) quem tem de resolver os problemas, ter a iniciativa, com ou sem o apoio dos tomadores de decisões da política.

Tropecei neste livro que desde 2010 acumulava pó – enterrado no ‘Cemitério dos Livros Esquecidos’ (Carlos Ruiz Zafón). Folheei-o com agrado, revi os sublinhados e as notas, e deixei-me levar pelo encanto de nos voltarmos a encontrar… Acresce a nostalgia de ter partilhado com o autor bons momentos e de ter participado num outro livro dele.

O livro, Teamneurs, de Marco Cardoso, et al., (Padrões Culturais Editora, Lisboa, Dezembro de 2009), é, para mim, um sinal de esperança na construção da arquitectura de uma sociedade de homens e mulheres mais solidários, mais íntegros, mais empreendedores na valorização dos interesses colectivos… Para Jorge Alberto Vasconcellos e Sá, é “Um livro importante (e variado), dedicado a um objectivo primordial (fazer Portugal descolar) e baseado numa premissa central (não há países subdesenvolvidos, há países subgeridos).”

Segundo Marco Cardoso, começa a haver em Portugal sinais de que algumas coisas começam a mudar ao nível das mentalidades e das atitudes: “Qualquer pessoa que esteja atenta ao que se está a passar em Portugal fica confiante que existe um efeito de bola de neve em movimento. Isto apesar do clima de pessimismo que é estimulado a existir! As pequenas iniciativas estão a dar frutos. Existe uma consciência num número cada vez maior de pessoas que o nosso futuro depende de nós! Não se espere que sejam os outros a dizer bem e a implementar positividade e optimismo e acção na comunidade” (…) “A cada vez maior consciência que a sociedade civil vai tendo de que é ela (sociedade civil) quem tem de resolver os problemas, ter a iniciativa, com ou sem o apoio dos tomadores de decisões da política.” (pág. 307-308)

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A VILA DO SABUGAL – REGRESSO AO PASSADO

Sabugal – A linda entrada da vila

Embora esta risonha terra, por estar longe dos principais centros do País, esteja um tanto esquecida pela marcha do progresso, nem por isso deixa de ser rica e de acusar apreciáveis melhoramentos

Sabugal – A linda entrada da vila

Do Almanaque Bertrand, de 1950 (páginas 193 e 194), retirei esta interessante descrição da Vila do Sabugal, escrita por José Maria Andrade (um Sabugalense residente em Moçambique). Mantive a grafia original e reproduzimos as fotos que acompanham o texto.

“A VILA DO SABUGAL

QUEM vá da Guarda para esta vila, depois de ter passado por campos mais ou menos monótonos em que serpeia a estrada e de deixar a Ponte Nova, seguindo entre áleas de cerejeiras até avistar a quinta do Misarelo, certamente ficará extasiado, tal como nas paisagens descritas por Garrett, com o lindo panorama que se lhe oferece aos olhos.

A ponte airosa sobre o Coa, as duas azenhas dum e doutro lado do rio, a pequenina capela do Senhor dos Aflitos, em frente, ladeada de esguios ciprestes e lá mais em cima o vetusto castelo, sobranceiro ao rio, a atestar algumas das nossas glórias pretéritas, completam, juntamente com as inúmeras faias e flores que o enlaçam, uma belíssima tela.

O Sabugal, cabeça do mesmo concelho, é uma terra rica de folclore, de côres, de avoengas tradições!

Este concelho é um dos maiores e mais ricos de Portugal. A sua área estende-se até à raia de Espanha, depois de deixar Malcata e a serra Cornélia.

Embora esta risonha terra, por estar longe dos principais centros do País, esteja um tanto esquecida pela marcha do progresso, nem por isso deixa de ser rica e de acusar apreciáveis melhoramentos. As suas produções, próprias de climas frios, são muito apreciadas. As castanhas, que em dias ásperos e gelados, estalam na lareira; as batatas, que oriundas da América, encontraram aqui um esplêndido habitat; o centeio, que no dizer do povo, faz os olhos bonitos; o afamado sabor das suas trutas; a beleza das suas raparigas; a afabilidade dos seus habitantes; o seu hospital, um dos melhores do distrito; a sua grandiosa escola e sobretudo o seu castelo, fazem com que muitos forasteiros a procurem, principalmente na quadra cálida do ano.

O povo desta vila é alegre e feliz e mostra o seu regozijo e boa disposição, em dias de festa e domingos, no Largo da Fonte, local predilecto para esses folguedos, cantando entre outras árias de cunho regional:

Dão Solidão

Olha o passarinho,

Dão Solidão

Que caiu no laço,

Dão Solidão

Dá-m’um beijinho,

Dão Solidão

Dá-m’um abraço,

Dão Solidão.

A rolinha andar, andou,

Caiu no laço,

Logo lá ficou.

— Dá-m’um abraço.

— Isso é qu’eu não faço.

— Dá-m’um beijinho.

— Isso é qu’eu não dou.

E prosseguindo sempre, risonhos, nestas e noutras canções populares, ou dançando ao som do harmónio tocado a preceito pelo «João Casado», se divertem por longas horas.

Tem o Sabugal já um cinema de linhas modernas e em breve terá corrente eléctrica permanente, um bairro económico e uma estrada de circunvalação a abraçar a vila.

Sabugal – o novo cinema D. Dinis

Há ainda algo que torna o Sabugal importante e conhecido em quase todo o País. É a abundância de caça. As suas ariscas perdizes, matreiros coelhos e velozes lebres que vivem nos Cabecinhos, Peladas, Corujeira, Quinta do Lopes, e os javalis, lá mais adiante, na serra de Malcata, fazem, na verdade, a delícia dos que adoram as distrações cinegéticas.

Em suma, esta vila merece bem ser mais conhecida, acarinhada e visitada por aqueles que sabem apreciar a Natureza no que ela tem de mais belo e colorido, pelos que trabalham para o engrandecimento de Portugal e ainda por quem estuda a etnografia do nosso alegre povo.”

Norberto Manso

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O Filósofo e o Lobo

Fiquei fascinado com a leitura deste livro! Muito interessante.

Profunda reflexão de um filósofo sobre os humanos, comparativamente aos animais e ao lobo em particular, sem cair nos meandros da etologia e / ou da sociobiologia, estes sim, terrenos movediços em que facilmente se derrapa para abordagens fáceis, mas de cientificidade duvidosa. Relembro, a este propósito, Desmond Morris, autor de livros como: Macaco Nu, Zoo Humano, A tribo do Futebol, Sexos Humanos… de leitura fácil, brejeiros e onde (abusivamente?) se faz a comparação entre o comportamento animal e o comportamento humano. Mas, na juventude e na ânsia de querer sempre saber mais, liam-se com prazer; apenas isso, prazer.

Talvez, por isso, tenha partido para O Filósofo e o Lobo a medo, medo que se esvaiu às primeiras linhas. Em boa hora o li; mas, dado o título do livro, talvez seja mais apropriado dizer, devorei. Devorei com gosto, mastigando cada ideia, salivando por novas reflexões. No fim, um aprazível arroto (sinal de gratidão, não de má educação) que se arrastou madrugada dentro.

Dou a palavra aos mais entendidos:

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Vaidade dos vivos ou reconhecimento dos mortos?

Os nomes dos lugares fazem parte da memória colectiva da comunidade, são uma espécie de marca-d’água comunitária que se mantem geração após geração; marcas-d’água que são a expressão de um sentir colectivo e não de um grupo particular ou de uma circunstância especial.

1 – Costumamos dar nomes às coisas e convencionamos designações para nos entendermos. As localidades têm nome, e dentro das localidades, cada lugar, cada rua, cada praça, cada avenida tem um nome; e a gente entende-se. É a toponímia.

Ao longo dos tempos as pessoas foram atribuindo nomes aos lugares. Nomes que ficaram e que cumprem a sua função referenciadora de localização do lugar. E dessa forma, uma carta enviada da China chega ao seu destinatário em Panóias de Cima.

No concelho há uma claríssima distinção entre os topónimos usados na cidade do Sabugal e os usados nas restantes povoações do concelho. Enquanto na cidade há muitos nomes de personalidades, individualidades, escritores, etc., nas povoações do concelho predominam os topónimos ancestrais que os habitantes se habituaram a usar e que tinham mais a ver com o próprio local e com o ambiente rural.

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Nunca mais vou olhar para os cães da mesma maneira!

“Os animais fazem as coisas por alguma razão. A crueldade, a fúria das bestas tem sempre a ver com a sobrevivência. Os animais tornam-se bestas para lutar, para sobreviver, tornar-se chefe da manada, conseguir a fêmea, conseguir alimento — por isso lutam e por isso matam. Numa luta entre cães, por exemplo, quando um deles se rende, oferece o pescoço ao vencedor e este deixa-o viver. Se o venceu, não o mata. O ser humano é o único que mata aquele que se rendeu. Isso vi-o com os meus olhos, ninguém me contou.”

Cães Maus Não Dançam (Edições Asa, Fevereiro de 2021) é o último livro de Arturo Pérez-Reverte, cuja leitura me fascinou do princípio ao fim. Delicioso! “Trata-se de uma parábola sobre o mundo animal e também humano, sobre a crueldade e sobre a violência. (…) É uma defesa do cão e um ataque ao homem”, no dizer do autor.

É um romance negro espantoso que se entranha – quiçá, devora – tal a narrativa envolvente que Pérez-Reverte cria. É o ‘mundo cão’ pelos olhos de Negro, um cão rafeiro, cruzamento de mastim espanhol e cão-de-fila brasileiro; o mundo de um cão na sua relação com outros canídeos e alguns humanos à mistura.

Não sabemos o que se passa na cabeça dos cães, mas a fértil imaginação do autor, ao transpor para os cães o mundo dos humanos, humanizando-os sarcasticamente (“Ladra-te a ti mesmo”) dilui as diferenças entre o homem e o cão e chegamos a esquecer quem são as personagens. “É o ser humano visto pelos cães, como eles nos vêem, com a sua admiração e as suas decepções.”

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O Meu País

“não considero que os portugueses sejam geneticamente inferiores, mas tão-só que, ao longo da História, existiram razões para que tenham ficado intolerantes, beatos e incultos.”

“O Meu País – Notas sobre Nacionalismo” de Maria Filomena Mónica (Relógio de Água Editores, 2020) é um interessante contributo ao estudo do Nacionalismo. Escrito de forma livre, a pensadora e investigadora, parece agora tanto ‘mais solta’ quanto mais a idade avança: “agora, que me foge a curta vida, gosto mais dela porque finalmente me deu a oportunidade de pensar, falar e escrever livremente.” (pág. 209)

A obra socorre-se dos muitos documentos e factos históricos, referenciados e dispersos por entre alguns autores, a partir dos quais MFM elabora a sua narrativa, por vezes – como é seu timbre – algo ácida sobre Portugal e os portugueses. No entanto, como ela diz, “Se me preocupo com os problemas do meu país é por desejar que ele seja melhor.” (pág. 10)

É um olhar transbordante de autenticidade, com a simplicidade sábia para questões complexas da nossa História, desde meados do Séc. XIX até à actualidade.

Muitas vezes MFM tem sido acusada de falta de patriotismo; no entanto, não é por falta de patriotismo que ela é tão crítica em relação a Portugal e aos portugueses. Pelo contrário, é por gostar tanto de Portugal que se deve ser crítico, para ver se se consegue fazer deste país um lugar decente, com pessoas decentes onde seja gratificante viver.

“não considero que os portugueses sejam geneticamente inferiores, mas tão-só que, ao longo da História, existiram razões para que tenham ficado intolerantes, beatos e incultos.” (pág. 11)

Boas leituras

Norberto Manso

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QUEM NÃO É PARA A CORNETA, QUE NÃO SE META!

Se da arte de manusear as palavras não percebes nada, está à vontade! Escreve, escreve no Facebook que é onde poucos se dão conta da miséria ortográfica que por lá grassa. Travestida de erudição literária, a miséria linguística dos autores empurra o Eça e o Camilo para singelas notas-de-rodapé num canto do inferno. E quanto a assunto, análises, objectividade, rigor, imparcialidade, conhecimento… esquece! Faz como os que por lá andam!

O meu amigo Zé, conhecido pela sua extraordinária ignorância culinária, ignorância proporcional à sua pública e notória gula, convidou-nos para um repasto anunciado pomposamente como ‘soirée gourmet’.

Preparado pelo anfitrião, o cripto-repasto foi salvo pelo queijo e pelo presunto que, como se sabe, são apeguilho a precisar apenas de um bom pão. O vinho também não estava mau… fôramos nós a levá-lo!

– Porque é que tu te metes a cozinhar se de cozinha não percebes pívia? Em vez de perderes tempo a cozinhar mal, porque não vais até ao Facebook, mandas lá umas bocas e escreves umas coisas? Perguntou um dos convidados, ainda deslumbrado com tamanha desfaçatez culinária.

– Porque eu não sei escrever! Não dou duas para a caixa! Responde o Zé.

– Se da arte de manusear as palavras não percebes nada, está à vontade! Escreve, escreve no Facebook que é onde poucos se dão conta da miséria ortográfica que por lá grassa. Travestida de erudição literária, a miséria linguística dos autores empurra o Eça e o Camilo para singelas notas-de-rodapé num canto do inferno. E quanto a assunto, análises, objectividade, rigor, imparcialidade, conhecimento… esquece! Faz como os que por lá andam!

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