AQUI NA TERRA ‘TÃO JOGANDO FUTEBOL’

Aqui na terra tão jogando futebol
tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Nuns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Agora que o futebol tem a sua tribo arregimentada, recupero um texto que escrevi em 2006 sobre o mundial de futebol:

«1 – No mundial de futebol, eu, como tantos outros, nomeadamente o Miguel Sousa Tavares, não me associei a imbecis manifestações patrioteiras ad hoc a mando de um seleccionador brasileiro. Não está em causa nada de tão fundamental que justifique colocar a bandeira nacional na varanda da casa ou na janela do carro. Bandeiras com publicidade em clara violação da dignidade dos símbolos nacionais, ofensa a tantos que derramaram o sangue da própria vida na defesa do seu país e do símbolo da sua pátria.

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HÁ TERRENOS TÃO ÁRIDOS ONDE NEM A IGNORÂNCIA CRESCE!

Todos somos ignorantes só que em coisas diferentes. Mas, se é verdade que quanto mais aprendemos mais sabemos, paradoxalmente quanto mais sabemos, maior se torna o universo do que não sabemos, ou seja, mais ignorantes ficamos: o aumento da ignorância é directamente proporcional ao aumento do conhecimento. E, neste sentido, saber que não sabemos é saber muito, mas é também tomarmos consciência da nossa enorme ignorância.

Cada vez somos mais ignorantes porque cada vez há mais para saber, e disso temos consciência. Nascer hoje ou há 10 mil anos é idêntico: temos de aprender tudo. Só que, há 10 mil anos, havia menos para saber do que hoje.

Hoje, somos as sociedades da ignorância! O desconhecido de que hoje cada um de nós tem consciência desconhecer é muitíssimo superior ao desconhecido de que tínhamos consciência há 10 mil anos.

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Verdade, Bondade e Utilidade

“Ao fim
Ao fim são muito poucas as palavras
que nos doem a sério e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
que tocam o nosso coração e menos
ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
que em nossa vida a sério nos importam:
Poder amar alguém, sermos amados
e não morrer depois dos nossos filhos…”

(Amália Bautista)

Se o que me deseja dizer não é verdade, nem bom e tão-pouco me será útil, qual o meu interesse em saber? Para quê dizer-me?

Na antiga Grécia, Sócrates, foi famoso pela sua sabedoria e pelo grande respeito que tinha pelo seu semelhante. Consta que um dia se encontrou com um conhecido seu que lhe disse:

-Sabe o que ouvi sobre o seu amigo?

-Espere um minuto – replicou Sócrates. Antes que me diga qualquer coisa, quero que passe por um pequeno exame. Eu chamo-o de triplo filtro.

-Triplo filtro? – perguntou o outro.

-Sim, – continuou Sócrates. Antes que me fale sobre o meu amigo, talvez seja boa ideia parar um momento e filtrar três vezes o que vai dizer. É por isso que lhe chamo, “Teste do Triplo Filtro”. E continuou: o primeiro filtro é a verdade. Está absolutamente seguro de que o que me vai dizer é verdade?

-Não, disse o homem, realmente só ouvi dizer que…

-Bem, disse Sócrates, então realmente não sabe se é verdade ou não.

Agora permita-me aplicar o segundo filtro, o filtro da bondade. É algo bom o que me vai dizer sobre o meu amigo?

-Não, muito pelo contrário…

-Então, continuou Sócrates, deseja-me dizer algo mau sobre o meu amigo e ainda por cima não sabe se é ou não verdade?

Mesmo assim, ainda falta um filtro, o filtro da utilidade. O que me vai dizer sobre o meu amigo será útil para mim?

-Não, na verdade não.

-Bem, concluiu Sócrates. Se o que me deseja dizer não é verdade, nem bom e tão-pouco me será útil, qual o meu interesse em saber? Para quê dizer-me?

Com algumas adaptações, este é um texto que circula pela net e que achei oportuno transcrever, porque a maior parte das vezes não usamos os filtros e acabamos por ouvir e falar de tudo e de todos, espalhando calúnias e boatos, umas vezes sem intenção alguma, outras vezes propositadamente para nos vingarmos, destruindo a dignidade, o bom-nome e a honra das pessoas.

O diz-que-diz-que, o boato, a fofoca são uma praga contagiosa que injecta veneno mortífero na dignidade da pessoa humana.

Norberto Manso

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Outra História, Outras Estórias

Adérito Tavares, natural de Aldeia do Bispo – Sabugal – no seu livro recentemente editado: Outra História, Outras Estórias – Crónicas do tempo que foge (Bertrand Editora, Lisboa 2021), manipula as palavras com inaudita mestria, a que não falta humor, envolvendo-nos com as suas estórias, deixando-nos fascinados na leitura. E à medida que nos vai seduzindo – aprisionando –, Adérito Tavares contextualiza a pequena curiosidade num universo mais vasto, integrando as estórias na História, onde não faltam referências à região.

A afirmação de Nietzsche: “não há fatos, apenas interpretações” não é uma verdade absoluta, pois até a própria afirmação é uma interpretação… E, no entanto, há factos!

Os factos que os historiadores desenterram quando se aventuram munidos de ferramentas de precisão em viagens no tempo, são factos. Porém, os factos carecem de uma interpretação, de um olhar em perspectiva que os situe no espaço e no tempo, de circunstâncias que lhe dêem sentido… Assim, as interpretações deslocalizam a factualidade para níveis interpretativos complexos e diversos, reposicionando os factos na conjuntura, na estrutura e na superestrutura de enquadramento.

No entanto, independentemente das conjunturas e das estruturas em que assenta a História, certos factos, certos episódios, certos acontecimentos, pela sua natureza, são dignos de relato; curiosidades interessantes que nos fazem reflectir. Outras vezes, os historiadores procuram nos factos do passado a origem para tantas tradições, usos, costumes e até expressões que diariamente utilizamos.

Foi neste terreno, digamos da ‘pequena história’, que Adérito Tavares se aventurou no seu livro recentemente editado: Outra História, Outras Estórias – Crónicas do tempo que foge (Bertrand Editora, Lisboa 2021). E aventurou-se com a inaudita mestria com que manipula as palavras (a que não falta humor), envolvendo-nos com as suas estórias, deixando-nos fascinados na leitura. E à medida que nos vai seduzindo – aprisionando – na leitura, Adérito Tavares contextualiza a pequena curiosidade num universo mais vasto, integrando as estórias na História. Também por isso, “Este é um livro de descobertas – cultas, lúdicas, sérias, surpreendentes; nele os nexos entre o passado e o presente nunca estão muito longe da superfície.” Dizem os editores.

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O Medo de Existir

“na maioria dos casos, a crítica, em Portugal, descamba no insulto pessoal, no embate imediato de dois «fulanos» – ou no elogio sobrevalorizante”

Em 2005 escrevi umas linhas sobre o livro, Portugal, Hoje: O Medo de Existir (Relógio D’Água, 2004) do filósofo José Gil.

Ao folhear revivem-se memórias reflexivas, pensamentos que a memória vai aprimorando… por exemplo, referindo-se ao descaramento político (nessa altura o João Galamba andava mais preocupado com o brinco na orelha!), José Gil escreve: “Descaramento sem vergonha, que reduz ao mínimo aquele muro de decência e de moral que tem regulado o comportamento dos políticos, sem que haja uma regra que delimite claramente a zona em que a moralidade (quer dizer, a dignidade pessoal, a correcção, o respeito pelos concidadãos, numa palavra, a civilização) impede certo tipo de atitudes.” (pág. 132)

Transcrevo um breve trecho que a realidade teima em manter actual:

A maior gratificação que pode receber um artista é saber que a sua obra entrou no espaço anónimo em que, transformando-se multiplamente, vai fazer nascer outras vozes, outras escritas, outros pensamentos. Ter a felicidade de saber que a sua obra deixou de ser sua, precisamente pelo seu poder de devir-outra.

Vê-se que o espaço público falta cruelmente em Portugal. Quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as «opiniões» dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das suas crónicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal). O «debate» é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. (…) A não existência de um espaço anónimo de devir das ideias e das obras retira, além do poder de criação, o dispositivo necessário (a mediação) que dessubjectiva o discurso e impede o choque dos «sujeitos». Se, na maioria dos casos, a crítica, em Portugal, descamba no insulto pessoal, no embate imediato de dois «fulanos» – ou no elogio sobrevalorizante – é por ausência de um terceiro termo que medeie a relação dos dois interlocutores.” (Pág. 30-31)

Norberto Manso

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As portas que Abril abriu*

Sonhámos, na euforia de Abril, um mundo novo. Tentámos ao longo de 40 anos realizar o sonho de Abril. O que está feito tem pouco a ver com o que sonhámos. Estávamos fascinados, deslumbrados. Agora, sobreveio o desencanto pelo que fizemos aos nossos sonhos.

No dia 25 de Abril de 1974, os portugueses foram possuídos por uma vaga de Utopianos imaginários. A utopia (lugar puro com uma sociedade perfeita) como que nos hipnotizou, e todos saímos à rua de cravo na mão, a sonhar com o novo mundo, a terra prometida, dádiva que os militares de Abril nos entregavam de bandeja, sem custos para o utilizador.

Democracia e liberdade davam os primeiros passos do que se imaginava ser o princípio da felicidade plena de um povo que durante 48 anos tinha sido oprimido. Acreditávamos que era chegado o tempo em que todos seríamos iguais, tudo bons rapazes, todos solidários e participativos, com consciência política; que era chegado o paraíso na terra, onde as fechaduras davam lugares a portas abertas num total respeito recíproco entre todos. A paz, o pão, habitação, saúde, educação… Revolução absoluta, felicidade para todos, perfeição total: avante camaradas que “o sol brilhará para todos nós”!

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Identidade Política

Um candidato não se faz de um dia para o outro, não nasce do nada. Um candidato afirma-se participando na vida activa do concelho, intervindo nos espaços e locais apropriados, vivenciando o pulsar sociocultural do concelho, construindo uma identidade política, programática e ‘ideológica’, dando a conhecer o que pensa, as opiniões que tem, assegurando uma previsibilidade de comportamentos políticos.

Luís Gonçalves, presidente da Comissão Política Concelhia do PS Sabugal, no seu mural do Facebook, colocou em tempos a questão do que é “ser conhecido ou não ser conhecido em política”; recentemente reiterou o questionamento, mas desta vez introduzindo a dicotomia competência / populismo: Competente ou populista? Pergunta ele.

Ainda que sem certeza alguma do que quer que seja, essas não são, no entanto, as minhas dúvidas. É simples: o Zé Cabra talvez seja mais conhecido no concelho do que qualquer um dos candidatos à Câmara, e, no entanto, tenho a profunda convicção que se ele se candidatasse no Sabugal o resultado eleitoral seria humilhante para ele; o mesmo aconteceria se Henrique Gouveia e Melo se candidatasse, apesar de ser altamente competente e pessoa prestigiada, mas desconhecida da grande maioria dos sabugalenses (se formos ao Google todos o conhecem!).

Em relação à competência: todas as pessoas são competentes só que em coisas diferentes; todos somos incompetentes em coisas diferentes. Ou seja, ninguém é totalmente e em tudo competente ou incompetente. Pelo que a competência só é avaliável em relação à função que se exerce. E por mais competente que se seja em qualquer exercício não podemos deduzir a partir daí outras competências: um calceteiro altamente competente e qualificado não seria certamente convidado a fazer o projecto de arquitectura de um estádio de futebol; e, no entanto, é muito competente no que faz.

Pelo que, a verdadeira questão, e sobre a qual muito escrevi no Cinco Quinas e aqui no blogue (ver, por exemplo, a secção: SABUGAL – AUTÁRQUICAS 2017 | Duque Li (wordpress.com) está na Identidade Política dos candidatos.

Em Julho de 2013 escrevi:

«Conheço algumas pessoas que, acredito, dariam excelentes presidentes de Câmara. Acredito, com base nas suas características pessoais: no carácter, na inteligência, na honra, nos valores, na honorabilidade, na determinação, no saber, nas ideias, na visão para o concelho, etc. etc. Mas eu acredito porque os conheço, com eles partilho vivências, convivo com eles. Mas todo esse conhecimento resulta de relações restritas, pessoais e privadas que a outros não são dadas ter. Por isso, e apesar de eu considerar que dariam excelentes presidentes, se se candidatassem, provavelmente, só teriam meia dúzia de votos. E porquê? Porque nunca se afirmaram publicamente, nunca se expuseram nem expuseram as suas ideias, e não são públicas as cores dos seus pensamentos. Os eleitores querem votar e ter expectativas baseadas em provas dadas e não num qualquer propósito suportado pela crença.

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SEXUALIDADES: infidelidades – IV / IV

Alguém que para estar comigo traísse outro, não me mereceria o respeito para estar com ele! Mais cedo ou mais tarde chegaria a minha vez!

Maria

Quem disse que ser fiel era fácil?

Não! Não é fácil ser-se fiel. É um trabalho árduo, permanente, constante, diário. E, ainda bem! Se fosse fácil, não havia nenhum mérito na fidelidade. E é tanto mais difícil, porquanto, sermos desejados, ou desejar outro, faz-nos sentir vivos, melhora a auto-estima e o amor-próprio; sermos o alvo, sermos desejados por alguém faz bem à alma; acordarem em nós o desejo pelo outro torna-nos mais humanos.

Mas valerá a pena materializar esse desejo num envolvimento sexual, quando é sabido que esse envolvimento magoa o outro tanto como nós ficaríamos magoados se fossemos traídos?

O respeito tem que ser mútuo e só há um caminho para manter uma relação que se quer gratificante: não fazer ao outro o que não gostaríamos que o outro nos fizesse. É verdade que uma facada no matrimónio não quer dizer que já não haja amor. Mas é um escancarar de portas à perda da confiança e até à perda do respeito, pilares fundamentais de uma relação.

A infidelidade é uma resposta natural, uma conduta (também) fundamentada no impulso sexual para a variedade. Assim entendida, a infidelidade é natural; a fidelidade é imposta pela cultura. Como tal, a infidelidade é um comportamento correcto em termos biofisiológicos; errado em termos socioculturais (magoa se dela o outro tiver conhecimento; mas saberá alguém gerir convenientemente a mentira e conviver com o medo de ser descoberto?)

A fidelidade é um conceito e um valor essencialmente cultural; algumas sociedades poligâmicas integram-na em formas de casamento não monogâmico. E, porque isto são respostas culturais, quando somos fiéis somos mais humanos; a infidelidade é uma resposta do animal (da biologia, do impulso sexual para a variedade) que há em nós e que nos torna mais próximos dos outros animais e nos afasta do humano (cultural). O erro, a culpa e o sofrimento que provocamos quando somos infiéis é assim atenuado pela nossa condição humana. Só magoamos porque a nossa sociedade instituiu a monogamia.

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SEXUALIDADES: infidelidades – III / IV

Mas o frágil edifício do amor deles desmoronar-se-ia imediatamente porque esse edifício repousava sobre o pilar único da sua fidelidade e os amores são como os impérios: desaparecendo a ideia sobre a qual estão construídos, também eles desaparecem.

Recebi esta mensagem de uma leitora, talvez das poucas que leu os dois últimos textos:

“…o problema é que depois de ter estado com outra pessoa, e já lá vai tanto tempo, não me perdoei ainda a mim própria o que fiz, não me perdoo por ainda não ter contado ao meu marido e, muitas vezes, quando estou com ele na intimidade, os remorsos e a culpa paralisam-me o desejo e impedem-me o prazer… Gostaria tanto que nada tivesse acontecido. Quero tanto ultrapassar este sentimento de culpa. É que eu continuo a amar o meu marido; o amor que sinto por ele nunca o pus em causa. Será este o preço que tenho de pagar por uma loucura a que não soube resistir?”.

Viver é desenhar sem borracha, dizia o poeta Millôr Fernandes. Na realidade, a vida humana só acontece uma vez e não temos nem segunda nem terceira oportunidade de apagar e refazer o que nos aconteceu. Mal ou bem, o que fizemos, fizemos. Podemos gerir a situação, aprender com os erros, esconder o mal que fizemos, mas nunca, nunca conseguiremos que a borracha apague o que foi feito. Não há regresso ao passado. Se pudéssemos viver duas vidas tudo seria mais fácil: uma vida seria para aprender e errar e outra para se agir bem.

Na mensagem da leitora parece haver a confissão de duas infidelidades: a infidelidade do envolvimento sexual com outro e a infidelidade de o esconder ao marido. Talvez na sua cabeça não saiba qual das duas é a mais grave. E quando o marido souber (se algum dia o chegar a saber) o que é que o magoará mais? O envolvimento com o outro (do qual vai querer certamente saber todos os pormenores) ou o ter sido durante tanto tempo enganado, iludido? E a pergunta impõe-se: é preferível que o outro seja feliz na ignorância ou assumir a verdade que pode destruir o casamento? Não há receitas; cada um de nós encontra as respostas que acha mais adequadas e aprende a construir o seu próprio caminho. E, se nesse percurso se omitiu (diferente de mentir) durante tanto tempo o que aconteceu, poderá a verdade ser sacrificada em favor da harmonia conjugal? E será que o marido não sabe mesmo? Será que não está apenas a fingir que não sabe a fim de preservar a vida a dois? Muitas vezes as coisas até se intuem e delas não se quer falar; as palavras, depois de ditas, podem fazer grandes estragos.

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SEXUALIDADES: infidelidades – II / IV

“Nunca enganei a minha mulher. O mérito não é nenhum: amo-a.”
(Georges Duhamel)

Terminei o último texto dizendo que a infidelidade só é um problema quando os dois prometem ser fiéis e, pelo menos um, não o é.

Segundo Kinsey (1948 e 1953) cerca de 30% dos homens e 20% das mulheres apresentavam actividade sexual extraconjugal. Outros estudos mais recentes apontam para 30% a 60% dos homens e 20% a 50% das mulheres. Mas, mais do que estas estimativas, é interessante verificar que as relações extraconjugais não acontecem tanto no início do casamento. É à medida que o tempo passa que os casais vão ficando mais tolerantes, e com a duração do casamento aumenta a frequência de actividade sexual fora do casal. Quando duas pessoas estabelecem entre si laços amorosos que se traduzem num relacionamento afectivo-sexual, elas, porque se amam, não deixam espaço a outros amores; têm um uso exclusivo, mutuamente exclusivo, do corpo do outro. Amor e sexo fundem-se num só e se falha o amor deixa de haver sexo; se falha o sexo o amor desaparece.

Normalmente, não se pode ser infiel no amor porque só se ama uma pessoa de cada vez, e, ou se ama ou não se ama. Talvez, por isso, o que dói não é o outro ter uma relação sexual extraconjugal, mas o medo de que o outro já não nos ame, por amar outro. Se calhar, a infidelidade masculina faz sofrer mais a mulher quando a infidelidade do homem acontece com a vizinha do lado, do que com uma prostituta. Com a prostituta está implícito o não envolvimento amoroso ao passo que com a vizinha, nunca se sabe! Uma coisa é certa, quem fica magoado com a infidelidade do outro reserva-se o direito de exigir não ser magoado. E, se o for, tem o direito de não querer e exigir não continuar a ser magoado.

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